Morre aos 81 anos o fotógrafo Sebastião Salgado

Uma reflexão sobre a vida e a obra do icônico fotógrafo brasileiro que dedicou sua carreira a registrar a condição humana.

© Valter Campanato/Agência Brasil

Sebastião Salgado, um dos ícones da fotografia mundial, faleceu na França, aos 81 anos. A informação foi confirmada pelo Instituto Terra, fundado pelo fotógrafo e sua esposa, Lélia Wanick.

Reconhecido internacionalmente. Salgado dedicou sua carreira a registrar a vida de pessoas em condições subumanas, denunciando as desigualdades sociais em mais de 40 países e enfatizando a importância da justiça social e da preservação ambiental.

A causa da morte não foi divulgada. No ano anterior. Salgado anunciou sua aposentadoria do trabalho de campo em entrevista ao The Guardian, mencionando questões de saúde como motivo para a decisão.

Nascido em Aimorés, Minas Gerais, Salgado formou-se em Economia antes de se aventurar na fotografia. Com mestrado pela Universidade de São Paulo e doutorado pela Universidade de Paris, ele trabalhava na Organização Internacional do Café em Londres quando começou a fotografar, documentando suas viagens à África.

Em 1974, fez seu primeiro trabalho como fotógrafo freelancer para a agência Sygma, rapidamente se destacando e sendo contratado pela Gamma. No final de 1979, integrou a Magnum, uma cooperativa que revolucionou a fotografia documental.

Na década de 1980, já estabelecido. Salgado financiou projetos pessoais. Seu livro Outras Américas (1986) retratou povos indígenas da América Latina. Com a série Trabalhadores (1997), documentou o trabalho manual ao redor do mundo, destacando a extração de ouro em Serra Pelada, Pará. Essa série inclui a famosa imagem “Mina de Ouro de Serra Pelada, Estado do Pará, Brasil”, eleita pelo New York Times como uma das 25 imagens que definem a modernidade.

Em 1981. Salgado registrou o atentado ao então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, em Washington. A imagem foi vendida para jornais de todo o mundo, colocando seu nome em destaque.

Salgado também focou em migrantes e refugiados em seus livros Exôdo e Retratos de Crianças do Êxodo, viajando por mais de 40 países. “Este livro [Êxodos] conta a história da humanidade em trânsito. É uma história perturbadora, pois poucas pessoas abandonam a terra natal por vontade própria”, afirmou na introdução.

Em 1994, fundou a agência Amazonas Images, dedicando-se à documentação da Amazônia. Suas imagens da floresta, povos e fauna foram reunidas em um livro e expostas em diversas cidades, incluindo Paris e São Paulo.

Ao longo de sua carreira, Salgado recebeu prêmios significativos, como o Eugene Smith de Fotografia Humanitária e o Prêmio Hasselblad. Ele residia em Paris com Lélia e deixa dois filhos, Juliano e Rodrigo. Juliano, cineasta, co-dirigiu o documentário O Sal da Terra, indicado ao Oscar.

Em uma de suas últimas entrevistas, refletiu sobre sua carreira: “Tenho 50 anos de profissão e 80 de idade. Estou mais próximo do fim do que de qualquer outra coisa, mas sigo fotografando e trabalhando como sempre fiz.” Ao comentar sobre como gostaria de ser lembrado, disse: “Não me preocupo com isso. Minha vida está registrada nas imagens que produzi — e isso é suficiente.”

Recentemente, concentrou seus esforços na preservação ambiental. Em 1998, junto a Lélia, criou o Instituto Terra, voltado à restauração da Mata Atlântica e à conscientização sobre a crise ambiental.

Salgado formou-se em Economia antes de se dedicar à fotografia em 1973. Desde então, documentou conflitos, migrações e desastres ambientais, sempre com um olhar sensível às causas humanas.

Para ele, o papel do fotógrafo vai além da estética: “As pessoas às vezes me chamam de artista, mas eu digo que sou apenas fotógrafo. E é um privilégio estar presente onde as coisas acontecem.”

Nos últimos anos, abordou temas como aquecimento global e crise hídrica. “Estamos perdendo água, até mesmo na Europa. Regiões do sul da França passaram a depender de caminhões-pipa no verão — uma realidade antes restrita à África”, alertou.

Salgado expressou preocupação com a perda de biodiversidade: “Sem insetos, não há polinização, e sem ela, as plantas não sobrevivem. A Alemanha perdeu 70% da sua biodiversidade em quatro décadas. Precisamos agir.”

Em suas palavras finais, resumiu seu compromisso com o planeta: “Não se trata de maldade. O que falta é informação e consciência. E é isso que tento levar por meio da fotografia.”

Sair da versão mobile