Foz do Iguaçu (PR) — A combinação entre assistência técnica e gestão rural tem provocado mudanças concretas nas propriedades do Paraná. Dados das turmas-piloto da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), do Sistema FAEP, mostram que, entre 2023 e 2024, o lucro médio das propriedades atendidas saltou de R$ 492 mil para R$ 1,03 milhão — um crescimento de 109%.
O levantamento reúne 85 produtores de Rio Branco do Sul, Cerro Azul, Mandirituba e São José dos Pinhais, com foco na olericultura, incluindo morango, mandioca e hortaliças como alface, tomate, cenoura e berinjela. No mesmo período, a produtividade média aumentou 59%, passando de 156,5 mil para 249,4 mil quilos. A renda bruta cresceu 34% e a margem líquida avançou 92%.
Os números refletem uma mudança que vai além da lavoura: a forma de administrar a propriedade.
“Os resultados demonstram como a assistência técnica e gerencial contribui para a organização da propriedade. Com acompanhamento contínuo, o produtor passa a ter mais clareza sobre custos, produção e planejamento”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
“Apesar de pouco tempo ainda, é possível afirmar que a ATeG vai transformar o meio rural do Paraná”, completa.
Organização da gestão muda o resultado no campo
O projeto-piloto foi estruturado para adaptar a metodologia à realidade paranaense, com visitas periódicas, diagnósticos técnicos e econômicos e definição de metas em conjunto com cada produtor. A principal mudança ocorreu na gestão.
Os participantes passaram a utilizar ferramentas como caderno de campo, controle de fluxo de caixa e acompanhamento de indicadores produtivos e financeiros. Isso permitiu entender custos, identificar gargalos e planejar melhor as próximas safras.
“O aumento está diretamente ligado ao acompanhamento técnico sistemático, com diagnóstico da propriedade, definição de metas e orientações ajustadas à realidade de cada produtor”, destaca a coordenadora da ATeG, Vanessa Reinhart.
Nos municípios de Rio Branco do Sul e Cerro Azul, o trabalho começou com mandioca e hortaliças e foi ampliado ao longo do programa. Já em Mandirituba e São José dos Pinhais, os grupos atuaram com morango e produção hortícola.
Da produção sem controle à gestão estruturada
Em Rio Branco do Sul, a mudança foi sentida no dia a dia da propriedade. Entre os participantes, o produtor Diego Rausis reorganizou a produção familiar e retomou o cultivo de mandioca com base no acompanhamento técnico.
Com nove hectares, ele passou a registrar entradas e saídas, calcular custos e acompanhar indicadores de rentabilidade. O resultado apareceu rapidamente: lucro médio mensal de R$ 500 na primeira safra e R$ 1 mil na segunda.
“Na primeira colheita já deu retorno, mas na segunda melhorou bastante. Quando a gente organiza e aplica o que foi orientado, o resultado aparece”, afirma.
Na lavoura, a produtividade também mudou. A média, que era de três quilos por pé de mandioca, passou para cerca de seis quilos após ajustes no manejo e na adubação.
“A ATeG permite enxergar a propriedade como empresa. Antes eu produzia, mas não sabia exatamente quanto estava sobrando. Agora consigo ter o controle”, diz.
A mudança também impactou a forma de decidir investimentos.
“Quando você entende a diferença entre custo e investimento, começa a decidir melhor onde colocar o dinheiro. Isso mudou não só a mandioca, mas também a atividade leiteira”, relata.
Planejamento traz previsibilidade e até descanso
Outro exemplo vem do produtor Ebson Lucas Geffer, que também participou da turma-piloto em Rio Branco do Sul. Com 12 hectares, ele trabalha com mandioca, milho, hortaliças e sistemas agroflorestais.
Antes do programa, a produção era feita sem planejamento definido. Com a assistência técnica, passou a organizar melhor o uso das áreas e a priorizar culturas com maior retorno.
“O produtor precisa ter objetivo. Não dá para entrar na ATeG sem saber onde quer chegar. O técnico aponta os caminhos, mas quem faz acontecer é quem está no dia a dia”, afirma.
“Eu queria fazer tudo ao mesmo tempo. Hoje eu planejo, divido por área, vejo o que dá retorno primeiro e organizo o resto”, completa.
Com a gestão estruturada, a renda da propriedade aumentou cerca de 35%. O controle financeiro trouxe previsibilidade e permitiu algo raro na rotina rural.
“Foi a primeira vez que eu consegui sair tranquilo. Deixei tudo organizado, sabia o que estava plantado, o que ia colher e quanto tinha para receber. Isso foi resultado do planejamento”, diz.
Programa se expande e alcança milhares de propriedades
Os resultados das turmas-piloto impulsionaram a expansão da ATeG no Paraná. Em 2025, o programa chegou a 109 turmas, envolvendo 6.397 propriedades em 253 municípios, com mais de 14,7 mil visitas técnicas realizadas.
Inicialmente voltada à olericultura, a iniciativa passou a atender outras cadeias produtivas, como bovinocultura de leite e corte, cafeicultura, apicultura, grãos, fruticultura e piscicultura.
A proposta integra técnica de produção e gestão financeira, reforçando um modelo em que a propriedade rural passa a ser tratada como unidade produtiva estruturada — com planejamento, controle e tomada de decisão baseada em dados.
