Era uma manhã como outra qualquer. Como de costume, o pesquisador Colin Darch chegara cedo ao Centro de Estudos Africanos (CEA), no campo universitário em Maputo, Moçambique.
– “Já ouviste?”, questionou o pesquisador sul-africano Rob Davies. “O avião de Samora desapareceu. Não voltou da Zâmbia na noite passada.”
33 mortos e uma queda com causas ainda por apurar. Foi assim que Darch, atualmente investigador associado da Universidade de Cape Town, ouviu pela primeira vez os detalhes do desastre que matou Samora Machel, então presidente de Moçambique, além de outra figura conhecida: Tomás Aquino Messias de Bragança – seu chefe e colega no CEA.
A bordo do Tupolev 134, soviético, Aquino integrava a equipe presidencial que retornava de uma missão de paz na Zâmbia. Eram tempos de África Austral, o que significa dizer que o avião despencara em Mbuzini, território sul-africano, num contexto marcado pelo poder econômico e militar da República da África do Sul, onde um governo de minoria branca havia instituído o sistema do apartheid.
Peça-chave
Explicar as razões deste episódio não é fácil. Mas os que se recordam de como o incidente ecoou em suas mentes ajudam a tecer as teias (por vezes invisíveis) da trajetória dos movimentos de libertação das então colônias portuguesas na África. E, em particular, da luta levada a cabo pelos moçambicanos. Uma jornada na qual Aquino de Bragança foi peça-chave.
“Em termos de descolonização, o que se passa em Moçambique é inteiramente novo. Não está nos livros. Não vão buscar os livros. Não vão buscar receitas. Isto é novo”, diria Aquino ao reafirmar o que seria a sua posição até o fim da vida – a de construir o autoconhecimento da sociedade, um conhecimento que lhe seja capaz de elucidar quem é e para onde vai, por quais meios e com que recursos.
Uma opção por mudar o mundo e não apenas compreendê-lo, como avalia Boaventura de Sousa Santos em Aquino de Bragança: criador de futuros, mestre de heterodoxias, pioneiro das epistemologias do Sul.
O saber e a colônia
Pesquisador, professor, jornalista, intelectual público, militante político, diplomata discreto. Foram tantos os ofícios de Aquino de Bragança que é difícil defini-lo apenas por suas ocupações, embora todas sejam essenciais à compreensão de sua personagem híbrida.
Nascido em 6 de abril de 1924, em Goa, quando essa ainda era uma colônia portuguesa na Índia, sua juventude foi influenciada pela ligação de sua família com o jornalismo.
Mas foi ao se fixar na França, onde graduou-se físico, que Aquino iria estabelecer ligações profundas com os nacionalistas e os movimentos de libertação das então colônias portuguesas, da qual Moçambique fazia parte – e seria, não por acaso, eleita como morada deste histórico lutador.
Nas lembranças de Isabel Casimiro, ex-aluna de Aquino e, atualmente, pesquisadora do CEA, “foi uma espécie de ministro sem pasta enviado por Samora Machel para desempenhar as mais diversas e difíceis missões, para abrir caminhos num momento de Guerra Fria, de agressividade do apartheid na África do Sul e na Rodésia e de guerra de desestabilização em Moçambique” – uma imagem partilhada por Boaventura, que atribui ao pensador africano a vocação de limar arestas.
No começo dos anos de 1960, Aquino estava convencido: integraria o núcleo inicial que criou a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas (CONCP), em abril de 1961.
Juntou-se a nomes como Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral, formando uma geração que esteve vinculada organicamente ao processo de independência de Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Cabo Verde.
Teoria e prática
Em 1975, após a independência de Moçambique, funda e assume a direção do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane (CEA/UEM). Ali, estreitaria os laços entre a teoria e a prática na tarefa por dispensar o saber coloniale construir um conhecimento que servisse aos interesses de uma sociedade livre.
“Estava tudo por se fazer”, pontua Casimiro. E isto, esta constatação, se projetava no cenário das investidas do CEA em produzir uma capacidade nacional para que fosse possível estudar, pensar, refletir, desafiar.
Entender um país. Transformar um país. Escolhas de convivência difícil. Mas o CEA queria mais e, assim, foi criada a Oficina de História no início dos anos de 1980. E lá foi Aquino, estimular o estudo sobre o poder popular, a produção e as cooperativas nas antigas zonas libertadas.
Percurso do qual resulta, como um dos exemplos, a tese pioneira de Casimiro sobre a participação da mulher na luta armada – concluída num momento de embate entre a visibilidade mundial dos movimentos feministas e a resistência da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) ao tema por considerá-lo secundário ao processo revolucionário – uma visão contrária às expectativas de Aquino para quem este tipo de pesquisa era crucial para o entendimento das raízes da opressão da mulher, das relações de poder e das características da luta, como recorda Casimiro.
Autonomia cultural
Estudar com profundidade desde os aspectos que possam parecer mais insignificantes até os mais evidentes. Naquele ano de 1980, a vazão a esse pensamento encontrava espaço nas páginas da recém-lançada revista Estudos Moçambicanos, dirigida pela socióloga sul-africana, Ruth First – à época, diretora de investigação do CEA a convite de Aquino.
Jornalista ativa na defesa dos direitos humanos, First levava a vida no exílio desde 1964, quando se viu obrigada a deixar a África do Sul após denunciar os horrores do trabalho escravo praticado em seu país.
Em Moçambique, esteve à frente do Curso de Desenvolvimento, organizando métodos de trabalho coletivo e de campo comprometidos com a transformação social. Mas até mesmo quando se dedicava mais às atividades acadêmicas do que às de militante, ela continuava a ser uma ameaça ao governo do apartheid.
Já se chega a 1982. Uma carta-bomba lhe tira a vida, dentro do próprio CEA, e o clima seco do inverno se estende por todo o mês de agosto.
Para Darch, tanto Aquino como First exerceram forte influência um sobre o outro. Compartilharam um sentido de urgência política que tornava necessário romper com os moldes acadêmicos para se buscar as múltiplas Moçambiques existentes.
Um movimento que levou Aquino a partilhar, ao lado de Amílcar Cabral com quem também teve uma convivência próxima, a preocupação em não converter a concepção marxista de suas opções teóricas em uma doutrina rígida e reducionista, como destaca Boaventura.
Novidade
Em outras palavras: o que estava em jogo era valorizar a especificidade e novidade do processo moçambicano em curso. Submeter a tradição teórica a um exame crítico que considerasse, entre outras questões, o valor autônomo da cultura, como reivindicado por Cabral em texto enviado à reunião da Unesco, em julho de 1972: “A atitude e o comportamento de cada categoria ou de cada indivíduo diante da luta e ao seu desenvolvimento são, certamente, ditados pelos seus interesses econômicos, mas também profundamente influenciados pela sua cultura. Pode-se mesmo afirmar que é a diferença dos níveis de cultura que explica os diferentes comportamentos dos indivíduos da mesma categoria social relativamente ao movimento de libertação”.
Mas o que tais palavras significam na ordem das coisas? Que peso elas têm na empreitada de Aquino de Bragança em sua trajetória no CEA?
Àquela altura, as análises sociais corriam o risco de acomodarem-se na visão economicista e a ideia de negros africanos culturalmente idênticos era uma realidade presente, nascida fora da África. Talvez, por isso, na memória de Casimiro resida a lembrança do caderninho em que Aquino anotava, muitas vezes, aquilo que ouvia. A prática da escuta permanente que marcaria diferentes gerações de estudantes que ele ajudara a formar.
Se estivesse vivo, Aquino estaria hoje com 90 anos.
