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Home Geral

Sinais de que eu sou um machista de esquerda

Por Amilton Farias
14/03/2019 - 11:20
em Geral
Foto: Reprodução

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Nós vivemos em uma cultura construída sobre uma estrutura feita de machismo. Historicamente, foram os homens que decidiram, na maioria das vezes na base da força, as regras pelas quais vivemos hoje.

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É praticamente impossível desvincular quase tudo o que tomamos por padrão comportamental desse fato, mesmo nos menores detalhes e vieses que passam absolutamente despercebidos pra maioria das pessoas.

Apesar de longe de ser uma guerra vencida, as mulheres fizeram e fazem muitos avanços todos os dias na luta por um mundo mais igualitário.

Uma dessas vitórias, pelo menos aos meus olhos (e vale lembrar que isso não é uma unanimidade), é o fato de que cada vez mais homens conseguem ver os benefícios para todos quando o assunto é o avanço da igualdade de gênero.

Já há algum tempo andava com essa ideia no fundo da mente e, de repente, acabei recebendo esse texto escrito por Danilo Castelli no Medium, recomendação da Marília Moschkovich. Achei a proposta bem interessante.

Eu mesmo não gosto de incorrer na culpa sobre o indivíduo. Nós não existimos sozinhos no mundo e há mil fatores que vão, mais ou menos, nos conduzindo a tomar algumas decisões ou a tomar certos referenciais equivocados como base.

Porém, também não acho que devemos ser tão condescendentes assim e penso que melhorar como indivíduos e entender os caminhos mentais que nos levam a ser incoerentes em nossas ações cotidianas faz parte de um processo de lapidação que nos leva a um amadurecimento do nosso entendimento sobre essas pautas que nos são importantes.

No Brasil, a pauta da igualdade de gênero costuma ser atribuída à esquerda, que tem tendências mais liberais no que diz respeito às liberdades e direitos individuais. E é justamente o “homem de esquerda” que, uma vez que se considera um tanto mais entendido no assunto, acaba perpetuando comportamentos não menos violentos com as mulheres.

Um perigo no qual muitos acabam incorrendo, é o de achar que só por que você se propõe a ser mais aberto à essa cartilha, está acima de se enganar. Assim, você acaba sendo só um tipo mais sofisticado e ardiloso de machista.

Essa lista aqui embaixo, ainda que seja focada em um grupo político mais específico, tem grandes chances de doer e acertar uns nervos sensíveis. Mas é justamente por isso que é valiosa.

É olhando pra isso, questionando e tentando ser verdadeiramente críticos (e práticos) que conseguimos avançar, mesmo que em passos de formiga.

Espero, de coração que essa lista doa o bastante ao ponto de provocar umas mudanças por aí.

Sinais de que sou um machista de esquerda, por Danilo Castelli

Esta lista contém pensamentos e atitudes de machismo de esquerda, algumas que eu tive, eu e outras que eu vi em outros. Ela vai sendo atualizada à medida que eu encontro novas.

“Não tem nada tão parecido com um machista de direita quanto um machista de esquerda.”

Quando eu sempre tenho o “burguês”, “pequeno-burguês”, “liberal” e “pós-moderno” preparado para desqualificar o feminismo que me incomoda, seja essa caracterização adequada ou não.

Quando eu minimizo ou rejeito as lutas feministas, dizendo “O verdadeiro problema é o capitalismo” (e, dessa maneira, demonstro a minha ignorância sobre como capitalismo e patriarcado se articulam e a influência reacionária que o machismo tem sobre a classe trabalhadora).

Quando, assim como a direita justifica a ordem social classista-hierárquica com argumentos biologizantes, eu faço o mesmo com relação aos comportamentos e papéis de homens e mulheres. Dessa maneira eu contribuo para a invisibilização e, portanto, para a marginalização de todas as pessoas que não se encaixam ou desafiam a heteronorma e os papéis de gênero.

Quando eu não perco a oportunidade de dizer “O verdadeiro problema é de classe” toda vez que dizem algo a partir de uma perspectiva de gênero.

“Primeiro a questão de classe”

Quando, em vez de ouvir uma companheira para aprender, eu espero a minha vez para falar.

Quando eu faço mansplaining e/ou gaslighting com as companheiras.

Quando eu só vejo o machismo nas suas manifestações mais visíveis e explícitas (feminicídio, tráfico de pessoas, violência doméstica, estupro, discriminação no trabalho) e me recuso a vê-lo em suas manifestações mais sutis (assédio sexual na rua, desigualdade na divisão das tarefas domésticas, microviolências, violência simbólica).

Quando denuncio com muita firmeza os atos de machismo cometidos por burgueses, políticos, figuras públicas e até dirigentes de outros partidos, mas me faço de distraído sobre o machismo na minha classe social, no meu trabalho, na minha organização.

Quando só denuncio o machismo e a homo/transfobia de políticos, empresários, comunicadores, policiais ou outros agentes diretos da opressão e nunca questiono o machismo dos homens da classe trabalhadora em geral, nem dos meus companheiros de partido em particular.

Quando desqualifico as lutas feministas que me incomodam dizendo “Feministas eram as de antigamente”, que é uma maneira mais politicamente correta de chamá-las de “feminazis”.

Quando eu acho que a solução do machismo passa unicamente por realizar certas reformas institucionais e um pouco de “conscientização” e excluo a revisão dos meus privilégios masculinos e a minha própria autotransformação.

Quando intelectualizo as discussões numa perspectiva de “objetividade científica” como desculpa para não simpatizar com o ponto de vista “demasiadamente subjetivo” das vítimas do machismo.

Quando eu dou mais valor para as minhas OPINIÕES sobre gênero e diversidade sexual do que para as EXPERIÊNCIAS das mulheres e das pessoas LGBT e as TEORIAS que existem a partir de estudos rigorosos.

Quando banco o “cético” como desculpa para não pesquisar propriamente sobre o assunto já que… Quem precisa de dados se já tem A teoria revolucionária?

Quando ridicularizo as reivindicações feministas/LGBT dizendo que são “exageradas”, sem fazer o mínimo de esforço para me colocar no lugar das pessoas marginalizadas.

Quando demonstro incômodo e fico hostil diante da crítica radical do machismo, levando tudo para o pessoal e dizendo coisas como “Eu não tenho culpa pelos séculos de opressão”.

Quando todas as minhas posições sobre a questão são projetadas para não ficar alinhado com a direita, mas sem que isso implique um compromisso real da minha parte com essa causa.

Quando eu me acho no direito de emitir qualquer opinião ignorante, preconceituosa e paranoica sobre questões de sexo/gênero, já que elas não são importantes o suficiente para eu estudar.

Quando eu acho que são “os outros” que têm que me convencer, e não eu que tenho que aprender.

Quando eu pesquiso só o suficiente para aprender alguns termos (como “feminismo da terceira onda”) e aparentar erudição com o objetivo de conservar as minhas opiniões prévias.

Quando eu concordo com as pessoas de direita perguntando “Por que feminismo e não igualismo?“, o que indica que o assunto não me importa nem sequer para fazer uma pesquisa no Google, mas eu me sinto ameaçado ou deslocado por um movimento que prega liberdade e poder para as mulheres.

Quando aponto o fato – verdadeiro – de que existem machistas nas organizações de esquerda, porque seus membros também vêm da sociedade capitalista e patriarcal que eles combatem, mas faço isso para justificar esse machismo nos companheiros e não para colaborar com a tarefa de desafiá-lo e erradicá-lo.

Quando eu digo “Depois da revolução nós vemos”.

“Nada é mais parecido com um machista de direita do que um de esquerda”

Quando, assim como os machistas da direita querem negar o patriarcado procurando exemplos de mulheres que agridem homens ou denúncias falsas ou situações nas quais os homens sofrem mais do que as mulheres, eu procuro situações nas quais há feminismo burguês ou branco ou misândrico para justificar que a esquerda não tem nada a aprender com o feminismo.

Quando eu sou muito revolucionário falando sobre capitalismo e socialismo, mas me torno “pragmático e realista” falando sobre machismo e feminismo.

Quando digo que o socialismo não tem nada para adotar do feminismo, porque “a questão da mulher” já estava colocada em algum texto socialista de séculos atrás.

Quando, diante de uma expressão de ódio e raiva pelos assassinatos, os abusos e o discurso que minimiza a violência contra a mulher e as pessoas LGBT, eu me coloco num lugar progressista e dou sermões do tipo “Não é assim, nós temos que educar”. Afinal, não sou eu quem tem que conviver com a impotência e a tristeza de pertencer ao grupo vulnerável.

Quando eu ponho mais ênfase em criticar o feminismo por causa de como ele comunica as suas ideias do que em criticar a mente fechada machista da maioria dos homens, produto de privilégios e não só de “ignorância”.

Quando eu me irrito com as propostas de discriminação positiva ou de cotas para as mulheres e as pessoas LGBT e as recuso com argumentos meritocráticos que acredito que são não burgueses (idoneidade, esforço, luta).

Quando, do meu conforto como maioria simbólica, rejeito as medidas de cotas femininas na política, dizendo que “ter mais mulheres na política não vai melhorar a situação das mulheres trabalhadoras”.

Quando eu reclamo que “Estou sendo discriminado por ser homem” porque as mulheres têm espaços próprios nos quais homens não podem entrar, me negando a entender por que ou para que elas precisam disso. A mesma coisa com “Estou sendo discriminado por ser hétero” em referência a espaços exclusivamente LGBT.

Quando eu digo que, como o socialismo é contra toda opressão, não é preciso ser feminista.

Tudo o isso não é nenhum segredo. Muitas mulheres, gays e pessoas trans já viveram isso: não tem nada mais parecido com um machista de direita do que um machista de esquerda.

Este artigo foi criado na minha conta do Facebook em 26/10/2012. Desde então, foi compartilhado em vários blogs e foi modificado várias vezes. Esta versão é a mais recente.

Indicação de livros!

Precisamos saber como lidar melhor com as relações nos dias de hoje. O PdH vai indicar dois livros bem recomendados para quem quer saber mais sobre essa conversa.

  • Sejamos todos feministas (da Chimamanda Ngozi Adichie);
  • Como Se Ensina a Ser Menina (da Montserrat Moreno Marimón).

Os links do livros são de afiliados. Ao comprar na Amazon usando eles, você ajuda a financiar o PdH, sem nenhum custo adicional para você.

Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode assistir no Youtube, ouvir no Spotify e ler no Luri.me. Quer ser seu amigo no Instagram.

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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