Por Rafael Clabonde – Opinião
Em 1500 Pero Vaz de Caminha escrevia ao Rei de Portugal, já avisando aos navegantes que nestas bandas de cá do mapa, a terra era excelente para o cultivo – “em se plantando tudo dá”, foi uma das bases na defesa de exploração dos recursos aqui reconhecidos, e que foram a base inicial da acumulação de capital segundo prismas marxistas, para que a europa se enriquecesse obtendo ainda mais matéria prima e condições de iniciar o processo de industrialização no Século XVIII.
Fato é, que cultivar nossa terra se faz necessário, ainda mais do modo praticado na Guata Porã (“belo caminho”, em guarani (1)), onde se reaproveita o que a própria Pousada produz, e muito do que é servido na alimentação dos hóspedes e visitantes nasce ou é criado nos 16 hectares, que já são propriedade da família Custódio há mais de três décadas, mas foi de Guilherme a iniciativa em transformar a então Chácara, como opção sustentável de turismo em Foz do Iguaçu, cidade destino do mundo e que só perde para o Rio de Janeiro no Brasil, em número de visitantes neste presente vivido.
Se acessa o espaço com estrutura ecoficiente, pela Rodovia das Cataratas que atualmente foi alterada para Avenida, em uma tentativa de cobrarem maiores impostos locais, na região onde a especulação imobiliária iguaçuense se colocou em nível competitivo comparado à própria capital dos paranaenses, Curitiba.
Além das Cataratas do Iguaçu, esta é a zona de fronteira com a Argentina, que inclusive administra em concordância com o estado Brasileiro, o Parque Nacional do Iguaçu (Parque Nacional Iguazú), e essa é a maior esperança de preservação da mata nativa, que esta na mira dos grandes empreendimentos turísticos, o último inclusive exatamente ao lado da Guata, provocou aterramento de uma nascente que a Pousada estava recuperando – o aumento da vasão de água que media inicialmente um dedo, havia chego no tamanho de um palmo da mão.
Nós que começamos a Série desta semana, “Agroecologia Paranaense” falando da Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA), também voltaremos a falar lá do Assentamento Contestado, onde esta situada a experiência da Via Campesina. Um dos pontos dentre os variados diálogos entre a ELAA e a Guata Porã, é o sistema intensivo de suínos criados ao ar livre (SISCAL)¹, a realidade de criação dos animais e o convívio destes com as espécies silvestres, realmente impressiona e causa uma harmonia no ambiente, nos fazendo lembrar que somos realmente uma peça vinculada ao todo, nós somos o meio ambiente.
Conforme a foto de capa desta matéria já aponta, ocorrem visitações de espaços educacionais, inclusive essa que foi realizada pelo Colégio Agrícola da cidade, resultou em publicação que ajuda a embasar estas linhas, e trata-se de uma análise de Sandra Soares Teixeira² para programa de Pós Graduação da UNILA (Especialização em Educação Ambiental com Ênfase em Espaços Educadores Sustentáveis), vendo na Pousada seu potencial enquanto instrumento de Educação Ambiental.
E sobre isto, estive conversando com Guilherme durante visita onde pude conhecer melhor as trilhas que foram estudadas citado artigo, os Açudes (disponíveis para pesca esportiva), que estão incluídos em um sistema de drenagem do solo, que usa técnica com nome que me chamou atenção: espinha de peixe, utilizado com frequência em campos de futebol de grama (ver imagem ao lado).
Ou seja, é um mar de possibilidades e que já estava até o início da Pandemia, sendo um dos braços no município para receber instituições educacionais. E por que começamos a série nesta pegada? Precisamos nos (re)encontrar com nossas raízes, e a alimentação saudável, reeducação alimentar, são pontes para este elo, além do contato com o natural que nos é tão necessário, e espaços como este serão ainda mais importantes na volta das aulas presenciais que ainda seguem fora de cogitação para a tão devastada realidade brasileira, e da América Latina!
E somente desta pesquisa que compartilhamos, já podemos tecnicamente entender melhor a convivência sustentável da Guata Porã com o seu meio, pois é ele afinal que faz dela tão singular, utilizando do “Ciclo das Bananeiras”, para tratar as chamadas águas cinzas, que alimentam as pias, tanques e chuveiros da Pousada.
Sandra nos aponta este, como sendo um sistema da Estação de Tratamento (E.T.E.) anaeróbico de fluentes , e cita outros fatores que voltam nossos olhares para o lugar, como o corredor ecológico onde se encontram variadas espécies de plantas, e um pomar inclusive, além da Agrofloresta.
Concretamente uma das propostas que surgiram da parceria entre o Colégio Agrícola e a Pousada, é a possibilidade de firmar convênio para realização dos estágios supervisionados, sensacional!
É nesta perspectiva que também outra frente em Foz mas da esfera pública, busca ser a contrapartida de devastadora obra da gigante Itaipu Binacional, como nos trás Sheyla de Souza Polhasto³, com olhar voltado para a Ecopedagogia, uma ferramenta didaticamente interessantíssima para pensarmos novas abordagens quanto à temática ecológica, tendo em vista sua emergencial necessidade, pois seguimos presenciando cada vez mais fatores, que nos mostram completo desiquilíbrio ambiental em vigência.
A partir disto, estarmos em sintonia com espaços como a Guata Porã, nos faz sentir prazer imenso em trabalhar com memórias recém criadas, e que sim, são objetivos históricos riquíssimos, tendo em vista como já reforcei aqui na coluna, que tratar de Agroecologia é algo recente para todos nós, não somente para quem protagoniza ações agroecológicas.
Por fim, convidados quem ainda não esta participando da nossa 1ª Promoção da página no Facebook “Memórias Paranaenses”, com a Pousada em questão, tendo ofertado todo um dia com almoço para 2 pessoas, e somado a isto, montamos juntos uma Cesta Viva Agroecologia que você poderá levará para casa, acesse link abaixo e saiba como participar:
https://www.facebook.com/memoriaspr/photos/a.112002797324004/114319227092361/
E ah, esta refeição serve uma família composta por casal e filhos, mas se estes não derem conta os funcionários entram em ação, e se o apetite não for suficiente será a vez dos porcos… o que não serve como alimento para eles vivará compostagem, genial.
Quanto à PROMOÇÃO “O QUE TE ALIMENTA?” – Sorteio é no próximo sábado (03/10), Dia Nacional da Agroecologia. Boa sorte!
O próximo capítulo desta nossa série seguirá na fronteira com a Argentina e o Paraguay, pois é iguaçuense também o Sítio Jacarandá de Permacultura e Agroecologia, outro elo de resistência no extremo oeste do Paraná.
Fonte:
(1) www.facebook.com/pousadaguatapora
Referências Bibliográficas
¹Sistema intensivo de suínos criados ao ar livre – SISCAL. A Experiência da Escola Latino Americana de Agroecologia. In: Jornada de Agroecologia, 12ª, 2013, Maringá. Anais. Maringá: Escola Milton Santos, 2013. p.30
²TEIXEIRA, Soares. Índice de Atratividade em Pontos Interpretativos (IAPI) da trilha interpretativa na Pousada Agroecológica Guara Porã e análise do seu potencial como ferramenta de Educação Ambiental. UNILA, 2016.
³POLHASTO, Sheyla. A prática da Ecopedagogia e suas possibilidades. UNILA, 2017.
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