A história de Ana Terra faz parte de O tempo e o vento, obra máxima do escritor gaúcho Érico Veríssimo e que narra 150 anos da história do Brasil.
No século 18, a jovem Ana Terra mora com os pais e os dois irmãos no interior do Rio Grande do Sul. Sua vida resume-se a tarefas domésticas e à convivência com a família, além da lamentação por não conviver com um número maior de pessoas e por ter uma vida tão limitada.
Ao longo das páginas, percebemos que Ana e sua mãe não concordam com o local em que vivem e com a vida que levam, mas sua mãe se conforma em concordar e obedecer ao marido, enquanto a filha só pode contar com a esperança de um casamento para sair do interior.
Diante do cenário de repressão e poucas esperanças, Ana conhece o índio Pedro Missioneiro, que foi ferido em combate e carrega uma espécie de carta de recomendação.
Sem saber lidar com seus sentimentos, tentando lembrar constantemente da educação que recebeu e dos conceitos de caráter e honra da época, Ana tenta reprimir o desejo sexual e o interesse sentimental que tem por Pedro. Seu primeiro reflexo é rejeitar ou ignorar o índio, o que inclui desdenhar de todas as suas qualidades.
Apesar de ser uma personagem situada em uma época bem diferente da nossa, com quase 250 anos nos separando, é inegável as semelhanças entre a criação de Ana e a nossa. Mesmo tendo dois irmãos, ela é a única a ajudar a mãe nas tarefas domésticas diariamente; sua opinião não é levada a sério e o homem que ama pode sofrer as consequências desse sentimento “proibido” por conta da discriminação racial. Sim, isso é triste, mas é real. Porque, mesmo em 2017, a mulher branca que namorar uma pessoa negra, indígena ou com traços característicos de outro país vai ouvir “Nossa, mas você é tão bonita pra essa pessoa” – discurso que limita os conceitos de beleza física e desconsidera a beleza interior. O bem que seu novo amor lhe faz não é levado em conta, a miscigenação ainda é condenada, conforme podemos ver no trecho abaixo:
“Os dias que se seguiram para Ana Terra dias de vergonha, constrangimento e medo. Vergonha pelo que tinha passado, constrangimento perante Pedro, quando o encontrava diante das outras pessoas da casa; e medo de que estas últimas pudessem ler nos olhos dela o que havia acontecido. Aquele momento que passara com o índio à beira da sanga lhe havia ficado na memória forma confusa.”
Como se não bastasse, o envolvimento do casal não diz respeito somente a eles, mas também à família de Ana. Ou seja, sua entrega ao desejo e ao amor caracteriza uma desonra aos seus pais e irmãos. “Poxa, é o corpo da Ana, a vontade da Ana e a escolha da Ana, não é?”. Deveria ser, mas não é. Sua família (exceto a mãe) se sente no direito de “resolver o problema” da maneira mais ultrapassada que poderíamos imaginar, o que pode incluir a exclusão de Ana das reuniões da família na hora da refeição e o julgamento pelo resto de sua vida. Ela passa a ser ignorada por pessoas que deveriam lhe dar apoio.
E isso não é tudo. A história de Ana se passa durante uma guerra e a formação de um novo povo. Ela fica no meio de tudo isso, como se sua existência beirasse a insignificância, mas sem que isso lhe tire o peso das obrigações impostas por um modelo de sociedade que só leva o interesse masculino em consideração. Ela é quase invisível aos olhos de muitos, mas se torna essencial quando falamos em cobrança de comportamento.
Tudo isso faz com que a heroína perceba que nascer mulher é um fardo e uma condenação. Em algumas passagens, fica evidente sua tristeza diante do nascimento de uma garota, pois sabe que isso trará muito sofrimento e sacrifício ao recém-nascido.
“E assim as duas mulheres começaram mais um dia. E, quando a noite desceu, encontrou-as a dar comida para os homens, à luz da lamparina fumarenta. E dentro da casa aquela noite só se ouviu a voz do vento, porque ninguém mais falou. Nenhum dos homens sequer olhou para Ana, que só se sentou à mesa depois que eles terminaram de comer.”
Em meio a tantas narrativas que evidenciam o heroísmo masculino na história do Brasil, Ana Terra é um belo exemplo de força feminina que sofreu com o domínio estrangeiro no país e diante de um modelo de sociedade em que a mulher não tem vontade ou voz, apenas ouve e obedece. O machismo da época na qual a história se passa acompanha a narrativa do começo ao fim, o que pode nos dar uma pequena ideia da repressão sofrida pela protagonista.
Assim como tantas outras, a Ana só resta a opção de viver um dia de cada vez e lutar por aceitação, o que cada um faz à sua própria maneira.
