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O racismo do bolsonarista Rodrigo Amorim contra a Aldeia Maracanã

Por Amilton Farias
09/01/2019 - 12:42
em Geral
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) fez uma série de comentários racistas sobre a Aldeia Maracanã, espaço de resistência indígena na zona norte do Rio.

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Eleito com o apoio do clã Bolsonaro e do governador Wilson Witzel, Amorim chamou de “lixo urbano” o terreno de 14,3 mil metros quadrados, que, segundo ele, estaria precisando de uma “faxina”, para “restaurar a ordem”. Durante a campanha eleitoral, Amorim usou a mesma expressão, “restaurar a ordem”, após destruir com as próprias mãos uma placa que homenageava a vereadora e defensora dos direitos humanos Marielle Franco, assassinada em março do ano passado.

Rodrigo Amorim destrói placa em homenagem à Marielle Franco durante comício/ Foto: Reprodução

“Aquele lixo urbano chamado Aldeia Maracanã é um absurdo. E é logo em um dos trechos mais importantes sob o ponto de vista logístico, numa área que liga a zona norte à zona sul, bem do lado do Maracanã. O espaço poderia servir como estacionamento, shopping, área de lazer ou equipamento acessório do próprio estádio do Maracanã. Como carioca, me causa indignação ver aquilo do jeito que está hoje. Quem gosta de índio, que vá para a Bolívia, que, além de ser comunista, ainda é presidida por um índio” declarou o bolsonarista ao jornal O Globo.

Se algum político carioca decidisse defender a demolição do Grande Templo Israelita do Rio, fazendo a alegação de que “quem gosta de judeu, que vá para Israel”, seria um escândalo mundial. E, no entanto, o mesmo tipo de agressão pode ser feito tranquilamente à comunidade indígena da cidade, e a um dos lugares que ela escolheu para praticar sua espiritualidade, sem que isso seja considerado mais do que uma simples “polêmica”.

As falas de Amorim receberam grande destaque nos veículos das grandes empresas de comunicação locais, que, como de costume, mais uma vez omitiram fatos importantes sobre a situação jurídica do imóvel. Em nenhuma das reportagens é mencionado que os indígenas contam com uma decisão judicial lhes garantindo o direito ao manejo da área, a do processo nº 2012.51.01.101051-4, julgado pela 7ª Vara de Justiça Federal. Contrastando com a cobertura espetaculosa que fazem da atuação do Ministério Público Federal nos processos da Operação Lava-Jato, também não se publicou nenhuma palavra sobre o recente posicionamento da instituição a respeito, que foi  favorável à Aldeia. Algo no mínimo estranho, pois se trata de duas questões intimamente ligadas.

Foi o que ficou claro, durante o último julgamento envolvendo o território tradicional, que aconteceu em 18/12, no Tribunal Federal da 2ª Região. Na ocasião, o Procurador Regional Luiz Cláudio Pereira Leivas defendeu a nulidade da suposta venda do terreno do antigo Museu pela União ao Estado, solicitando o reconhecimento de sua posse pelos indígenas. Citando expressamente as propinas recebidas pelo ex-governador Sérgio Cabral, o representante do MPF fez duras críticas  às pretensões do governo estadual de privatizar a gestão do bem, um patrimônio histórico tombado. Posição aparentemente ignorada por Amorim, que insiste em querer reeditar o mesmo modelo usado pelos dois últimos governadores do Rio, Cabral e Pezão, para promover desvios milionários de dinheiro público.

O parlamentar ainda acusou sem apresentar nenhum tipo de prova,  o espaço de ser um “cracolândia”. A atitude leviana faz lembrar a da emissora Globo News, que, em 2013, taxou de “traficantes” manifestantes que cobriam seu rosto para se proteger do gás de pimenta, em uma das tentativas de despejo da comunidade indígena.

Amorim também aproveitou para macaquear a retórica xenofóbica da extrema direita internacional, fazendo outra acusação falsa: a de que a Aldeia Maracanã, seria, na verdade, “lugar de refúgio” para “imigrantes sem relação com índio algum”. A alegação é feita com base na abordagem a um único indígena Mapuche, que estava de passagem pelo local.

A cena está registrada em uma peça publicitária veiculada nas redes sociais pelo também deputado estadual Alexandre Knoploch (PSL). Em tom policialesco, Amorim e Knoploch submetem a um interrogatório o jovem, que fica visivelmente constrangido. Perguntam com o que trabalha, se tinha documentos, e, com grande insistência, qual é o seu país.

Amorim e Knoploch em peça publicitária racista contra Aldeia Maracanã/ Imagem: Reprodução

Ao ouvir do rapaz que sua nação era Mapuche e que não se identificava com nenhum Estado, Knoploch não se conforma: “Meu amigo, isso não existe! Qual é o seu país? Peru? Bolívia?” se indigna, demonstrando toda a sua ignorância. Os Mapuche são atualmente a maior população originária sobrevivente na América Latina (cerca de 1 milhão e 400 mil pessoas, que habitam principalmente o Chile e a Patagônia argentina).

Em outro momento, Amorim deixa clara sua visão de mundo colonizada: “A gente não vê isso em outros países. É inimaginável, por exemplo, numa Allianz Arena, em Munique, na Alemanha, a gente ver uma tribo indígena co-existindo em um espaço tão importante para cidade e para o Estado.” É isso mesmo, você não leu errado. Um dos “argumentos” do deputado para ser contra a Aldeia Maracanã é o fato de não se ver comunidades ameríndias… na Europa!

Em seguida, Knoploch qualifica como “hostil para a sociedade carioca” a paisagem verde da Aldeia, que, também sem apresentar nenhuma evidência, acusa de ser um possível foco de mosquitos da dengue. Ficamos com a impressão de que “amigável”, em sua concepção, deve ser o cinza do cimento que cobre o restante do complexo do Maracanã, um oferecimento do consórcio liderado pela famigerada empreiteira Odebrecht. “Saudável” deve ser derrubar as poucas árvores que restaram na região, não por acaso, na parte onde ficam os indígenas. Bom, pelo menos para saúde a financeira de alguns políticos oportunistas, certamente faria bem.

Segundo o advogado do Aldeia, Arão da Providência Guajajara, os ataques não ficarão sem resposta.  “As medidas judiciais e populares serão à altura!” afirmou, informando que os indígenas se reunirão hoje (09/01) com a Procuradoria Geral da República pra formalizar denúncia sobre o ocorrido.

A investida de Amorim e Knoploch é mais um lance da ofensiva do grupo político de Wilson Witzel contra a resistência indígena no Rio. No último dia 19/11, três policiais à paisana (“P2”), armados, foram identificados na Aldeia Maracanã. O incidente aconteceu poucas horas depois de o  então recém-eleito Witzel divulgar em uma rede social sua intensão de “restaurar” o prédio do Antigo Museu do Índio e entregar sua gestão para a iniciativa privada.

Da esquerda para a direita: Marcelo Crivella, Dom Orani Tempesta e Wilson Witzel/ Foto: Reprodução

Mais uma vez, é difícil não recordar 2013,  quando o mesmo discurso foi utilizado por Sérgio Cabral como pretexto para promover um truculento despejo do aldeamento.

Após serem descobertos, os agentes tentaram fugir em um carro vermelho, de placa LQY 1208, mas foram impedidos pelos indígenas, que cercaram o veículo e bloquearam a saída com uma barricada. As lideranças exigiam esclarecimentos e uma retratação dos responsáveis pela operação de “inteligência” – que colocou em risco os idosos e as muitas crianças presentes.

Após uma tratativa de cerca de 1h o veículo em que estavam os três infiltrados acabou sendo liberado.  Mas primeiro o negociador da corporação teve de se desculpar e se submeter a uma “homenagem” feita por um grupo de mulheres Guajajara, que cantaram em volta do policial.

Indígenas se revoltam com a repressão na Aldeia Maracanã / Foto: George Magaraia

Mais conhecida como Aldeia Maracanã, a Teko Haw Maraká’nà é uma comunidade pluri-étnica existente desde 2006. O espaço recebe indígenas de vários locais do país e do continente, servindo como ponto de referência para os povos originários no Rio. O terreno não foi escolhido ao acaso, mas por seu longo histórico relacionado ao indigenismo brasileiro. Na cosmovisão de seus atuais ocupantes, trata-se de um solo sagrado, morada dos espíritos de seus ancestrais.

Korubo realiza ritual na Aldeia Maracanã/ Foto: George Magaraia

“Aqui viviam os povos Maracanã e Tupinambá, era um grande aldeamento. Nós não viemos até o Maracanã, a cidade que veio até nós. A cidade é um grande cemitério indígena que nos engoliu. Nós aqui não temos estrutura nenhuma, mas seguimos lutando”, explica o cacique Urutau Guajajara, que já chegou a ficar mais de 26 horas em cima de uma árvore tentando evitar uma das remoções da Teko Haw.

Após sucessivos despejos (e retomadas), as lideranças que lá permanecem não querem ser tuteladas pelo Estado. Reivindicam que o território lhes seja entregue oficialmente, para que eles próprios materializem e administrem nele uma Universidade Indígena, com total autonomia. A ocupação, em uma área central, serve para chamar atenção para a luta dos povos nativos.

“Não queremos mais ser souvenir, eu não quero que a minha foto saia por aí e diga para todo mundo que o indígena está bem no Brasil, que é lindo, maravilhoso. Mas que está sendo destruído, está sendo massacrado” exclama Ash Ashaninka, que ministra aulas de cosmologia da floresta.

Ash Ashaninka: “Não queremos mais ser souvenir.” / Foto: Reprodução

Para o próximo dia 20/01, o movimento está convocando seus apoiadores um ato no local, como parte da mobilização nacional que deverá haver contra o genocídio indígena. “Teremos um dia de atividades não apenas de protesto, mas principalmente de construção, com mutirões de limpeza, bioconstrução, plantio, assim como também rodas de canto, oficinas de artesanato e pinturas corporais” esclarecem as lideranças, através da página de facebook Aldeia Rexiste.

A Aldeia Maracanã fica na Rua Mata Machado, 126, ao lado do estadio de futebol com o mesmo nome.

(Por Midia1508)

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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