Em termos, digamos, “testosterônicos”

Foto: Reprodução

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Por Marco Roberto de Souza Albuquerque – Opinião

Considerações a propósito do vídeo “Sob pressão, Bolsonaro volta a atacar a imprensa”, de Josias de Souza.

Ponhamos a coisa em termos, digamos, “testosterônicos”: por quê, em vez de agredir à repórter de uma afiliada da Rede Globo  — o presidente, ladeado por um cabo e um soldado, não foi até a sede da emissora, entrou no escritório dos Marinhos e disse poucas e boas — ordenando ao manda-chuva da empresa que calasse a boca?

Mais: por quê, depois de desancar pessoalmente ao dono da emissora — não foi ele ao Palácio do Planalto e despachou um decreto revogando a concessão da Rede Globo?

É óbvio: porque Bolsonaro sabe que a crise institucional seria tal, que nem o “partido militar” poderia sustentá-lo no Alvorada; Mourão tocaria o resto do mandato, a Rede Globo continuaria no ar — e o Capitão, junto com os filhos  (todos quatro), ver-se-ia às voltas com uma miríade de processos que pipocariam por todos os lados. Como se sabe, não faltam razões penais para levar toda a família Bolsonaro aos tribunais.

Ponhamos tudo o que se lê acima também em termos “testosterônicos”: o Mito não tem peito para enfrentar senão a quem se acha desprovido de poder; ele só manda calar a boca quando se dirige a quem não está coberto de privilégios.

Então por que Bolsonaro (contumaz em destratar a repórteres — curioso: mormente mulheres) dessa vez deu vazão a uma enxurrada de despautérios?

Primeiro, consideremos o aspecto moral da coisa: despreparado, Bolsonaro é desprovido de um bom repertório de ideias, o que lhe priva, numa necessidade de improviso, de meios inteligentes para sair de uma “saia justa”; limitado, ele não possui um desembaraço verbal que lhe permita, para alfinetar a um interlocutor que  julgue impertinente — valer-se de uma ironia; e, irascível, não possui sequer uma dicção que lhe proporcione dizer, adequadamente, os impropérios que dirige aos que pretende humilhar — nunca gente graúda, com dinheiro e influência suficientes para revidar.

Por fim, levemos em conta o contexto da situação: ao contrário das manifestações de maio, as que tomaram as ruas no último sábado reverberaram nos veículos tradicionais de comunicação: não se restringiram às publicações nas redes sociais.

Isso significa que as empresas de comunicação — com exceção daquelas sabidamente cooptadas pelo Governo — estão dispostas a trazer a público (entre outros esquemas) as ilicitudes “no tocante aí” à compra de cloroquina e aos contratos para a aquisição da vacina indiana.

Tenha-se em mente que, não obstante suas digressões e rocambolices, a CPI no Senado está caminhando — e reunindo evidências.

E, se Witzel, em reunião privada com os membros da CPI — resolve contar quem mandou matar Marielle…

Diante de tudo isso, que pode fazer o Capitão?

“Causar”: agitar a escumalha de ressentidos e ignorantes que o aplaudem e ovacionam.

Cada vez menos articulado com a Imprensa — a conta de sua própria incompetência política e falhas de caráter –, só resta ao Mito as obscuras redes alimentadas pelo Gabinete do Ódio.

Como o “partido militar” não tem embarcado na aventura do golpe — os generais têm outras opções mais seguras e cômodas para garantir suas sinecuras e privilégios –, a Bolsonaro não lhe resta senão sublevar seus apoiadores.

Ao que tudo indica, ao Mito já nem lhe importam mais as eleições do ano que vem: o de que ele precisa mesmo é evitar o impeachment.

Porque, se ele perde o mandato — e, com ele, o foro privilegiado…

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor (a) e não refletem necessariamente a política editorial do Fronteira Livre

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