Como a dos bandeirantes: predatória

Foto: Reprodução

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Por Marco Roberto de Souza Albuquerque

Comentários sobre o vídeo: Indígenas em ato no DF sofreram violência que “não acontece nem na guerra” da UOL

Não se pode esperar nenhum progresso, com a exoneração de Ricardo Salles, nas diretrizes ambientais do Governo federal.

A propósito de tal exoneração, permita-se acrescentar que ela não corresponderia apenas à conhecida estratégia do Governo de tentar desviar a atenção da opinião pública de um assunto mais embaraçoso — o escândalo de corrupção envolvendo a compra da vacina indiana –, porém representaria um esforço do próprio Salles de safar-se das exemplares diligências dos ministros Cármen Lúcia e  Alexandre de Morais, que culminaram com o envio do celular do agora ex-ministro aos Estados Unidos para a quebra da senha.

Como pensa Reinaldo Azevedo, Salles provavelmente cuida que, com a transferência de seu processo do STF para a primeira instância — aumentem as chances de sua defesa. Diga-se também que, fora do Governo num momento em que as evidências de corrupção começam a pipocar — Ricardo Salles pode poupar-se da exposição na mídia.

Para os que desejem ouvir a Reinaldo Azevedo sobre Ricardo Salles e suas expectativas com relação à primeira instância da Justiça Federal: https://youtu.be/bAppKfLyugQ 

De volta às diretrizes ambientais do Governo federal, a tendência é que persistam contrariando todas as recomendações científicas acerca da importância — inclusive para a economia  — de respeitar as reservas naturais e estimular a conservação das matas nativas.

Especialistas em climatologia ou em outras áreas correlatas não se cansam de apontar — em tabelas e gráficos, artigos e entrevistas — que, na América do Sul, os regimes pluviométricos equilibram-se por meio de um complexo e delicado sistema chamado “rios voadores” (que integram as correntes de ar do Atlântico, a evaporação das grandes coberturas vegetais — especialmente na Amazônia — e o degelo dos Andes). Como se não bastassem os efeitos do aquecimento climático, que incidem sobre a regularidade das correntes de ar — as queimadas e o desmatamento (ascendentes desde que Bolsonaro assumiu a presidência) desregulam a transferência de umidade, pelo ar, do Norte até o Sul — passando pelas regiões de cerrado e pelo Pantanal.

O resultado da incúria no combate aos desmatamentos e queimadas — que não se iniciou com o governo Bolsonaro, mas que vem crescendo desde 2019 — ameaça não só o abastecimento de água potável e o fornecimento de energia elétrica: a escasez de chuvas, agravada com a agressão às coberturas vegetais do Pantanal e da Amazônia — incide também sobre a produção das commodities agrícolas.

A quem interesse saber mais sobre a relação entre desmatamento e desequilíbrio pluviométrico — e o impacto de tudo isso na economia: https://bit.ly/3y3dyPQ

Ora, não nos esqueçamos de que antes da pandemia, o presidente e seus assessores já eram negacionistas — e em várias aéreas. E, antes de implicar com máscaras de proteção e teimar que um remédio contra a malária previne a infecção pelo SARS-COV2 — o negacionismo bolsonarista vem sendo renitente e obstinado justamente no âmbito da preservação ambiental.

Saiu Salles? Não comemoremos. Veja-se o que fizeram os aliados do Governo na Câmara: como se fosse pouco os manifestantes indígenas haverem sido duramente reprimidos e dispersados polícia legislativa — no dia seguinte, ontem, Arthur Lira, presidente da Câmara, mancomunado com Bia Kicis, presidenta da Comissão de Constituição e Justiça — pôs, como único item de pauta para votação na CCJ, o Projeto de Lei contra o qual se manifestam as lideranças indígenas há mais de duas semanas.

O PL 490 é uma antiga aspiração da bancada ruralista: avançar sobre as reservas indígenas e pilhar suas riquezas: minérios, madeira, tudo; e levar os pastos e os sojais até onde possa alcançar a vista: para isso mesmo é que existe a grilagem.

Faz catorze anos que esse projeto de lei rasteja em meio a outras pautas reacionárias e inconsequentes; mas parece que, agora, Arthur Lira quer fazer essa pauta andar (e rápido!) para mostrar-se afinado com o bolsonarismo raiz, segundo o qual, além de não se dever demarcar mais sequer um palmo de terra, deve-se incorporar às fronteiras agrícola, pecuária, extrativa e mineradora — tudo o que já foi demarcado.

Por fim, como se já bastasse a pujança da bancada ruralista na Câmara, para a defesa de cujo interesse mais ardente o presidente Arthur Lira não dispensou nem mesmo uma violenta repressão a manifestantes indígenas — não se pode dizer nada alvissareiro, para o meio-ambiente, acerca do substituto de Ricardo Salles.

Joaquim Álvaro Pereira Leite pertence a uma família envolvida em disputa de terras com indígenas no interior paulista. Ávida por nacos daquela que já é a menor reserva do país, a família Pereira Leite não se faz de rogada: contrata jagunços e cumpre todo aquele roteiro de abusos e arbitrariedades que se lê nos livros de História do Brasil.

Para quem sinta curiosidade, eis um pouquinho do que se sabe da sanha fundiária da família a quem o Brasil deve o novo titular do ministério do Meio-Ambiente: https://bit.ly/3xXtJxU

Logo não se espere que, com a exoneração de Ricardo Salles, o Governo finalmente se alinhará com o conhecimento científico e o avanço sociocultural que apontam para a urgência na responsabilidade ambiental. Uma de suas bases políticas mais fortes representa justamente o desprezo para com as agendas internacionais voltadas para a sustentabilidade.

O bolsonarismo da gema tem os pés fincados na mesma ânsia predatória dos bandeirantes: uma genealogia de sua ambição remontaria aos cruéis apresadores de índios, aos sequiosos caçadores de ouro, a quem traficou pau-brasil até não sobrar sequer uma tora.

Só com a derrota do projeto de poder encabeçado por Bolsonaro, seguida da responsabilização, nos tribunais, de todos  os que, no Governo, têm tocado iniciativas orientadas pelo fisiologismo e pela corrupção  (Salles é o primeiro) — é que o Brasil voltará a figurar, na opinião pública internacional, como uma nação solidária com os esforços árduos, mas imprescindíveis, em prol de um desenvolvimento econômico que não desertifique o planeta.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor (a) e não refletem necessariamente a política editorial do Fronteira Livre

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