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Home Geral

Colônia Gorki: uma aventura rural pedagógica

Por Amilton Farias
23/03/2021 - 02:52
em Geral
Foto: Reprodução

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O coletivo é um organismo social vivo e, por isso mesmo, possui órgãos, atribuições, responsabilidades, correlações e interdependência entre as partes. Se tudo isso não existe, não há coletivo, há uma simples multidão, uma concentração de indivíduos.

Anton Makarenko

O que fazer quando se recebe a missão de dirigir uma escola, em uma comunidade rural isolada, destinada a crianças infratoras, que mal sabem ler e escrever, numa sociedade em que tudo está em xeque? Para Anton Makarenko, pedagogo ucraniano nascido em 1888, a alternativa foi olhar para seu passado de pobreza e investir no que havia lhe dado condições de viver do que amava: a educação. Mas para cada momento histórico e meio social, a simples transposição mimética não pode funcionar. De sua formação nas escolas operárias e da experiência docente nesses estabelecimentos, durante o conturbado processo de degeneração do czarismo russo, Makarenko se inspirou nos exemplos de resistência e luta dos coletivos operários (os sovietes) e nas leituras humanistas tão em voga na Rússia de então: Gorki, Tchekov, Pushkin, Gogol…

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Foi assim que ele iniciou, em 1920, num pequeno sítio em Poltava, a construção de uma experiência pedagógica (a Colônia Gorki) que visava a configuração de um método de formação da “personalidade coletivista” para a constituição do “homem novo” prescrito pelas idéias comunistas que comungava. Na visão de Anton, as novas relações sociais da sociedade que nascia deveriam estar baseadas numa rede de relações recíprocas de “subordinação entre iguais”. Para tanto, apostou na construção coletiva das normas de convivência e na instauração de um tribunal disciplinar. O resultado: um ambiente de trabalho e estudo disciplinado e alegre, com responsabilidades compartilhadas e momentos significativos de recreação e cultura.

Mas Makarenko e seus companheiros não viveram um idílio. Os bons resultados foram frutos de um duro processo de aprendizado coletivo, cheio de conflitos e exageros de parte a parte. Para piorar, enfrentaram os preconceitos da comunidade com a crescente liderança política dos “ex-delinqüentes”. Os serviços coletivos e as atividades culturais (principalmente peças teatrais) foram fundamentais para a legitimação do trabalho desenvolvido; que culminou na aprovação massiva da primeira geração de alunos nas recentes faculdades operárias. O sucesso da experiência trouxe contratempos. Makarenko começa a responder a seqüentes processos por supostos “desvios educacionais”. Talvez o principal “defeito” da sua pedagogia estivesse na insistência que fazia sobre a necessidade da educação ter uma orientação política clara, de contraponto à intervenção burocrática dos “técnicos e especialistas em pedagogia”, e mais próxima ao espírito dos sovietes. Em 1927, a Colônia Gorki é transferida e, em 1928, Anton é “convidado” a dirigir a Comuna Dzerjinsk.

Lá, passa a se dedicar à sistematização de sua proposta de autogestão pedagógica e, ao mesmo tempo, a enfrentar novos desafios. Contrapõe-se, por exemplo, às exigências estalinistas de desenvolvimento econômico acelerado, criticando a instauração da jornada de 6 horas de trabalho e 4 de estudo, defendendo a proporção de 2 para 6. Denuncia, ainda, a exploração do trabalho infantil no meio rural – mal que ainda hoje persiste no Brasil – e a situação dos menores abandonados. Em uma de suas novelas, Anton faz uma reflexão crítica sobre a utilização dos métodos tayloristas e fordistas no socialismo, defendendo a rotatividade entre os momentos necessários de aumento de produtividade e dos de planejamento e estudo científico.

Leia mais:
Biografia: Angelines Fernández (Bruxa do 71), da luta contra o fascismo aos palcos da vida

A partir de 1933, após afastar-se da direção da Comuna Dzerjinsk (que havia se tornado uma unidade de ensino praticamente auto-sustentável, baseada na relação educação/trabalho), volta-se para uma profusão de escritos sobre educação, os quais só terminam com sua morte, por ataque cardíaco, em 1939. Entre eles, destaca-se Poema Pedagógico (a principal obra literária de Makarenko, recém-publicada aqui pela Editora 34), uma tentativa de compreender os motivos de desmoronamento de seu “mundo” na Colônia Gorki e indício de suas frustrações pelo fracasso de não ter conseguido generalizar seu método de educativo para toda URSS.

O que esses poemas tão distantes no tempo e no espaço podem nos dizer? Talvez que toda aventura pedagógica é uma experiência concreta, enraizada num contexto social específico, que merece instrumentos adequados para seu efetivo desenvolvimento. Mas que, ao mesmo tempo, toda aventura pedagógica, de viés humanista, deve ter como norte a idéia de que toda criança ou adolescente, venha de onde vier e esteja em que condições tiver, é um ser humano a ser modelado pelas relações e interesses que nós, “comunidade educativa” (docentes, famílias e sociedade), estamos dispostos a fornecer – e que, portanto, ninguém é irrecuperável. Como afirma um atual revolucionário da pedagogia, o português José Pacheco: “Não existe aluno fracassado. O que há são métodos educativos ineficazes”.

Mas, o que a aventura de Makarenko traz como principal herança é a lembrança de que uma experiência pedagógica genuinamente democrática deve se equilibrar sob o seguinte princípio: “Exigir o máximo da pessoa e respeitá-la ao máximo”. Que essa leitura inspire reflexões, debates e, sobretudo, ações transformadoras, tanto no campo, quanto na cidade.

Marcos Marques de Oliveira / Agrolink

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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