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A dura batalha entre Lula e Bolsonaro pelo coração (e o voto) dos evangélicos em 2022

Por Amilton Farias
28/06/2021 - 03:02
em Geral
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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Rezo todo dia para Bolsonaro. Essa pandemia não tem nada a ver com o Governo, e quando ela veio achamos que era coisa do apocalipse”, afirma uma mulher, que não quis se identificar, na saída de um culto evangélico na Baixada do Glicério, região central da cidade de São Paulo. Em tom elogioso, diz que o presidente Jair Bolsonaro é evangélico —na verdade, ele é batizado na Igreja Católica, e foi rebatizado em 2016 no rio Jordão, em Israel, por um pastor evangélico, sem negar o batismo anterior— e afirma que compartilha dos mesmos valores que ela. Uma amiga ao seu lado escuta atentamente e concorda. Mas, no final, afirma: “No ano que vem voto em Lula.”

Essas falas, às vezes contraditórias e que se inclinam para dois espectros políticos radicalmente opostos, não são isoladas. A pouco mais de um ano das eleições de 2022, a entrada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida ao Planalto —após a queda de suas condenações por corrupção no Supremo— ameaça Jair Bolsonaro (sem partido) até mesmo no setor tido como o mais fiel ao atual mandatário: o eleitorado evangélico. Eles são cerca de 30% dos mais de 210 milhões de brasileiros. Em 2018, 70% dessa fatia da população entregou seu voto ao candidato de ultradireita, que levou o debate político para o campo da moral durante a campanha, centrando seu discurso nos valores da família cristã conservadora em detrimento de uma esquerda engajada nos direitos das minorias.

Mas, para alguns analistas, a fórmula bem sucedida de 2018 pode não ser suficiente para 2022. Estamos no meio de uma pandemia de coronavírus que já matou mais de 500.000 brasileiros e levou a taxa de desemprego a um patamar superior a 14%. A fome volta a assolar os lares das famílias e a inflação corrói a parca renda destes tempos bicudos. Enquanto isso, a vacinação caminha lentamente no Governo Bolsonaro, que vem fazendo uma errática e negacionista gestão da crise sanitária. É provável que o debate para a próxima campanha se centre mais em temas como saúde e economia. “O Brasil pós-pandemia vai ser um caos. Muitos comerciantes fecharam as portas e a economia não vai melhorar”, opina Kaiala dos Santos, de 25 anos e frequentadora da Assembleia de Deus.

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Ela trabalhava como operadora de caixa em uma lanchonete até o início deste ano, quando foi demitida e engrossou a massa de desempregados. “Os únicos que estão contentes hoje no Brasil são os ricos”, afirma. Desde então, passou a morar na casa de uma “irmã” da igreja junto de suas duas filhas, de 7 e 3 anos. Grávida, diz que Bolsonaro “brincou com a pandemia” e não enxerga um horizonte fácil. Mas já sabe em quem votará em 2022: “Dizem que Bolsonaro deu auxílio emergencial, mas Lula ou qualquer deputado fariam do mesmo nessa situação”, explica. “Bolsonaro pode até aumentar o Bolsa Família, mas o povo sabe que foi Lula quem criou.”

Sua visão difere da de Simone Pereira, outra fiel da Assembleia de Deus. Ela respalda o discurso oficial do Governo ao dizer que a economia estava começando a melhorar antes da pandemia. “A economia está indo mal agora, mas o Governo não tem nada a ver com isso. Quando a pandemia acabar, as coisas voltarão a melhorar”, opina ela, que trabalha no setor de comércios. Ela vivenciou de perto o vaivém das medidas de restrição e a consequente queda no número de clientes e de faturamento. Lamenta o número alto de desempregados —quase 15 milhões—, mas também acredita que haverá mais ofertas de trabalho no ano que vem. “Com isso acho que a popularidade de Bolsonaro volta a subir também”, afirma.

A disputa em 2022 promete ser acirrada. A última pesquisa do Ipec, divulgada no dia 25 de junho, mostrou que Lula lidera com folga a corrida presidencial, com 49% da preferência, o que lhe dá a chance de vencer já no primeiro turno. Além disso, no eleitorado evangélico ele aparece nove pontos a frente de Bolsonaro: o petista tem 41% no primeiro turno e o atual mandatário tem 32%. Já a pesquisa Atlas Político, que tem uma metodologia diferente, mostrou em levantamento realizado para o EL PAÍS no dia 7 de junho que o presidente ainda está bastante à frente do ex-presidente no eleitorado evangélico. Enquanto o primeiro marca 54% dos votos válidos, o segundo tem 31% —os demais eleitores se dividem entre outros possíveis candidatos. “Existe uma deterioração geral do Governo, inclusive dentro dos evangélicos. Mas seguem sendo o grupo com o qual o presidente mais tem diálogo”, explica Andrei Roman, diretor-executivo do Atlas. “Se Bolsonaro não conseguir reter nem os evangélicos, então tudo está perdido”.

Esse ponto é central e já faz os principais candidatos moverem suas fichas. Na última segunda-feira, 21 de junho, o pré-candidato pelo PDT, Ciro Gomes, gravou um vídeo de dois minutos exaltando os valores cristãos e como a política deve se guiar por eles. Com a Bíblia numa mão e a Constituição na outra, lembrou: “O Brasil é uma República laica, mas estes dois livros não são conflitantes.” Dois dias depois, logo após vencer mais uma batalha no Supremo, que validou a suspeição do ex-juiz Sergio Moro, foi a vez de Lula deixar sua mensagem voltada para o público cristão. Em seu perfil do Twitter, escreveu: “Deus esteve em cada momento nas coisas que vivi. Inclusive na minha prisão”. Mais adiante, disparou contra o atual presidente: “Se Deus simboliza o amor, a fraternidade e a bondade, Bolsonaro não pode ser enviado de Deus”. Bolsonaro, por sua vez, encontrou-se com lideranças evangélicas em sua passagem por Chapecó (SC) no sábado, quando promoveu mais uma motociata.

Para o pastor Edson Rebustini, da Igreja Bíblica da Paz, será difícil reverter o apoio dos evangélicos a Bolsonaro. Ele indica duas razões básicas que o levam a respaldar o atual mandatário. “Acredito nele como um político sincero, uma pessoa honesta. Às vezes ele exagera, solta uns palavrões, fala o que as pessoas não gostam de ouvir, mas é o jeito dele”, argumenta. “Além da integridade, os evangélicos o apoiam muito por causa de seus valores conservadores, em prol da família.” Por ser também o presidente do Conselho de Pastores de São Paulo, e ter contato com lideranças de todo o Estado, ele acredita que sua opinião é compartilhada pela vasta maioria dos evangélicos. “São mais de 600 municípios e 99,99% das pessoas que ouço estão dispostas a votar em Bolsonaro novamente”.

Apesar desse apoio, ele não se diz bolsonarista já que, segundo garante, não apoia o presidente mesmo quando ele está certo. “A esquerda só defende quem também é de esquerda”, explica ele, que diz discordar do presidente, por exemplo, quando ele desestimula o uso de máscaras ou elogia o ex-presidente Fernando Collor. “Mas a esquerda hoje defende pautas que os evangélicos não apoiam”, afirma, em mais uma referência ao conservadorismo do eleitorado e sua posição contrária a temas como aborto.

A estratégia do PT

O PT sabe que parte da estratégia para 2022 envolve entender as demandas —que são muitas— do eleitorado evangélico e construir pontes com ele. A questão não é nova para o partido. Já em 1989, quando Lula concorreu pela primeira vez, a Igreja Universal do Reino de Deus do bispo Edir Macedo, uma das maiores do Brasil, associou a imagem do petista a de um anticristo. A aproximação com o eleitorado só viria no segundo turno das eleições de 2002 e ganharia força nos anos seguintes, nos comícios de 2006 e 2010 —quando os evangélicos entregaram a maioria de seus votos para o PT. Foi nesse período que a bancada evangélica no Congresso também ganhou força e expressão nacional. O casamento chegou ao fim nas eleições de 2014, numa época em que o boato sobre o chamado kit gay nas escolas se espalhara. Naquele ano, mais de 50% do eleitorado apoiou o tucano Aécio Neves contra Dilma Rousseff.

Desde então, a distância só aumentou. Mas Lula deixou a prisão contando que, durante os 580 dias em que esteve na carceragem da Polícia Federal de Curitiba, assistia na TV aberta aos programas religiosos e pôde entender a capacidade de convencimento de seus líderes. Ele vem reforçando em entrevistas que a esquerda precisa voltar a se entender com esse segmento, uma articulação liderada por pessoas como a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), que é fiel da Assembleia de Deus, e o presidente do legislativo do Rio, André Ceciliano (PT-RJ).

Durante sua visita ao Rio de Janeiro no início de junho, Lula teve um encontro —não divulgado— com Manoel Ferreira, bispo primaz da poderosa Assembleia de Deus de Madureira, segundo informou a Folha de S. Paulo. A reunião ocorreu no sítio Ceciliano e contou com a presença de pessoas como Benedita e a presidenta nacional do PT, a deputada Gleisi Hoffmann. Ainda segundo a Folha, Lula teria expressado a vontade de contar com um vice-presidente evangélico, mas o bispo, de 89 anos, teria respondido que essa missão caberia ao seu filho Samuel Ferreira —que comanda hoje a Assembleia de Deus de Madureira e apoia Bolsonaro.

Outro que também vem ajudando a fazer essa articulação com os evangélicos no Rio, base eleitoral do clã Bolsonaro, é o ex-prefeito de Maricá Washington Quaquá. “Cerca de 50% dos nossos filiados são evangélicos, gente do povo, da periferia. Isso daria uma igreja, uma das maiores do Brasil”, explica. E prossegue: “Defendo que organizemos nossa base evangélica, como fizemos com o movimento sindical e o movimento sem-terra na década de 80, numa teologia solidária, verdadeiramente cristã”, argumenta.

E como essa organização se daria? “Além da discussão da necessidade prática da vida, das pautas econômicas, Cristo era mais próximo das teses coletivas, distributivas e da tolerância do que o contrário. Mas essa é uma discussão que o PT ainda não abraçou”, argumenta. Ele também afirma que a sociedade mudou e que as igrejas evangélicas também representam um lugar de sociabilidade, como eram as comunidades eclesiais de base na década de 1980. “Precisamos resgatar uma teologia cristã generosa, coletiva, tolerante, para disputar a hegemonia cultural das classes populares. Só a direita faz isso”, conclui.

Memória da bonança versos memória da corrupção

Outro componente que promete estar em jogo nas eleições de 2022 é a memória. “Antigamente eu tinha acesso a muita coisa e podia comer. Hoje um saco de arroz custa 30 reais, o óleo e o feijão estão a 10 reais“, afirma Kaiala. A qualidade de vida também mudou muito para Marcos Xavier, de 35 anos e frequentador da igreja Deus é Amor. Há pouco mais de 10 anos, Marcos vivia em Alagoas, seu Estado natal, e chegava a ganhar cerca de 6.000 reais mensais com seu trabalho. “Antes tínhamos crédito, podíamos financiar carro zero quilômetro. Foi assim que financiei uma loja”, recorda. Hoje, depois de problemas familiares e também relacionados ao consumo de álcool e drogas, trabalha como vendedor ambulante e vive num centro de acolhida da Prefeitura.

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Em 2018, Marcos entregou seu voto a Bolsonaro. “Pelo menos ele não está envolvido em nenhum caso de corrupção. Sei que o filho dele [Flavio Bolsonaro] está envolvido na rachadinha, mas não tem nada a ver com o Governo. Ele é um homem adulto”, argumenta ele, em defesa do atual presidente. Por outro lado, reclama que Bolsonaro tentou “governar sozinho”. Para 2022, buscará sobretudo experiência. “Votarei em Lula, acho que ele tem mais jogo de cintura, sabe conversar com deputados e senadores para conseguir o que é melhor”, acrescenta o homem, mostrando o pragmatismo de um eleitorado complexo e diverso, que compõe as classes sociais mais baixas e apresenta demandas que ultrapassam o espaço da igreja que frequentam.

O pastor Edson também acredita, assim como Simone, que a economia terá resultados positivos no ano que vem e espera que isso se reflita na popularidade de Bolsonaro. “Lula pegou uma fase boa, né?”, afirma. Porém, ele aponta para outro tipo de memória: a das denúncias de corrupção durante os governos petistas. “Nós não podemos nos esquecer o que aconteceu até pouco tempo atrás”, defende. Ele lembra que tesoureiros e importantes lideranças do PT, como o próprio Lula, já foram presos. “A lista é grande. Como é que eu posso querer que volte ao poder? Nossa opção é Bolsonaro porque não queremos que volte a corrupção.” Ao ser questionado sobre as suspeitas de que ministros do Governo e seu filho Flavio Bolsonaro são suspeitos de atos ilícitos, diz defender que todos sejam investigados.

Como o eleitorado evangélico vota

Vinicius Valle, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e autor de Entre a religião e o lulismo (Ed. Recriar), explica que o eleitorado evangélico tem prioridades diferentes em eleições para cargos no Legislativo e no Executivo. No primeiro caso, vale a mais a lógica de buscar alguém igual, com os mesmos valores. “A igreja está muito perto das pessoas. E é no meio dessa sociabilidade forte que vai surgir os candidatos evangélicos. Eles estão ali, na comunidade, circulando e sendo vistos como pessoas de um universo próximo”, explica. No segundo caso, a lógica é buscar alguém que consiga gerir a sociedade como um todo e lidar com questões como economia e emprego. “Pela questão econômica, os evangélicos tendem a se afastar de Bolsonaro. Estão sofrendo com falta de empregos, estão tendo sua vida material afetada. Existe uma tentativa do presidente de se descolar, mas está cada vez mais difícil manter essa narrativa”, argumenta Valle.

Outra questão em jogo é que Lula, pela sua capacidade de comunicação e sua história, consegue “subverter” a clivagem esquerda versus direita e ir além de seu campo ideológico, segundo Valle. Mas como os pastores podem reagir diante dos fieis que preferem o petista? “Uma coisa é o pastor famoso, outra é o pastor ali do bairro. As igrejas têm capacidade de se moldar à realidade local, de oferecer um tipo de discurso, um tipo de culto”, explica. “Se um pastor fala para um fiel que mudou seu discurso ou que recebe o Bolsa Família, ele não vai correr o risco de perder aquele fiel. É um mercado religioso.”

Por outro lado, a antropóloga Jacqueline Teixeira, doutora em antropologia social e pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, acredita que o antipetismo seguirá forte no Sul e no Sudeste. Sobretudo em lugares como o interior de São Paulo, pouco marcado por gestões progressistas se comparado, por exemplo, com a capital paulista. “Nesses lugares, embora as pessoas estejam desistindo de Bolsonaro, não necessariamente estão pensando em Lula”, afirma.

Outro obstáculo para a esquerda são as chamadas pautas de costume ou identitárias, como casamento gay e o feminismo. “Essa pauta das moralidades, que eram fortes no Legislativo, entrou no Executivo com tudo. Como é uma gramática que constrói engajamento político, tem chance de isso seguir e dividir o cenário com saúde, economia e educação”, explica. Para esses casos, explica Quaquá, dirigente do PT no Rio, vale mais uma vez os ensinamentos de Jesus Cristo: “O evangélico pode não concordar, mas se ele se guiar pelo Novo Testamento e pelo ensinamento de Cristo, ele precisa respeitar”, argumenta. E dispara contra os líderes evangélicos: “O que Silas Malafaia [da Assembleia de Deus], Macedo e esses farsantes fazem é pisotear o Novo Testamento e reafirmar o Velho. Esquecem que Cristo veio ao mundo pra estabelecer um novo paradigma religioso.”

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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