11 histórias de crianças atingidas pela Ditadura Militar brasileira

Reprodução livro Infância Roubada

Reprodução livro Infância Roubada

“Tive uma infância psicologicamente bastante conturbada. Eu tinha muitas convulsões e terrores noturnos.”e qualidade.

1º. Cacá, de um ano e sete meses, foi preso em casa com a babá e sofreu agressões dos policiais. Com 5 anos era chamado de terroristas pelos colegas de escola, desenvolveu fobia social, nunca pode trabalhar e se suicidou aos 40 anos.

Reprodução livro Infância Roubada

“Numa manhã de fevereiro de 1974, meu filho Cacá, de um ano e sete meses, foi preso em nossa casa, que ficava no bairro do Brooklin, em São Paulo. Eu tinha saído para ir à procura de Dom Paulo Evaristo Arns, com quem tínhamos um relacionamento direto, para avisar que o pai de Cacá [Dermi Azevedo] certamente tinha sido preso na noite ou no dia anterior.

Nem voltei para casa, porque, quando fui ao escritório de Maria Nilde [Mascellani], por volta das seis e meia da tarde, fui presa. Andamos por São Paulo e a equipe seguia prendendo outras pessoas, inclusive uma terapeuta que trabalhava com Nilde. No trajeto, eles foram me colocando medo. Em alguns momentos, eu ficava sozinha no carro por muito tempo, porque eles iam revistar uma casa, prender outras pessoas.

Só fui encontrar meu filho de madrugada, por volta de uma, duas horas, no DOPS, com a babá, Joana, que cuidava dele. Na manhã anterior, os policiais estiveram em minha casa para me buscar.

Como eu não chegava, levaram a criança e a babá para o DOPS. Ambos ficaram sem se alimentar, sem água, sem nada, por um bom tempo. Para minha surpresa, vi que na boca do meu filho havia um corte lateral. A menina me contou que [os policiais que] estavam em casa falaram: “Cadê a sua mãe? Sua mãe não está aqui nem pra te alimentar”. O menino começou a chorar de fome. Então os policiais deram um tapa muito forte que cortou a boca da criança.

Meu filho acabou me salvando da tortura. Fui levada para a sala de tortura, onde havia uma máquina de choque elétrico e comecei a ser interrogada pelo delegado Sérgio Fleury. Aí chegou um policial perguntando o que iriam fazer com o tal menino que estava preso no DOPS desde aquela tarde.

Por conta disso, não sofri tortura física naquela noite. Permitiram-me levar o menino para a casa dos meus pais em São Bernardo. Fomos durante a madrugada. Fui alertada pelo Fleury de que, se eu abrisse a boca para gritar ou falar qualquer coisa quando chegasse lá, meu filho voltaria comigo e não iriam levá-lo outra vez a lugar nenhum”.

“No período em que estive presa, meu filho ficou com meus pais. Ele teve uma infância muito difícil. Nós sofremos muita discriminação quando saímos da prisão. Quando Dermi saiu da cadeia, estava muito mal, fora da realidade e, para que melhorasse mais rápido, nos mudamos para uma cidade pequena do Rio Grande do Norte, Currais Novos, onde ele tinha nascido”.

“No Rio Grande do Norte, onde ficamos até 1979, meu filho sofria na escola, era chamado de terrorista, mau elemento, os meninos batiam nele. O todo tempo ele reclamava de ser atingido e tinha vergonha disso, de ouvir dizer que nós éramos marginais, principalmente a mãe – porque era uma paulista e todo paulista era, para eles, libertino. Isso ocorreu durante muitos anos.

Ele acabou se fechando e os médicos diziam que o trauma tinha sido muito grande, que a partir daí teria esse problema de saúde. Para poder ganhar dinheiro e nos manter, eu precisei trabalhar naquela cidade. Fui dar aulas. Quando eu entrava na sala dos professores, todos saíam e eu ficava sozinha. Isso não foi por um dia, uma semana, foi durante muito tempo.” – trecho do depoimento de Darcy Andozia sobre seu filho Carlos Alexandre Azevedo para a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.

Carlos desenvolveu fobia social, era técnico em informática, mas nunca conseguiu trabalhar. Ele se suicidou aos 40 anos.

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