V Fórum Social e Popular da Tríplice Fronteira encerra com declaração pública à sociedade

Documento final denuncia as diversas faces da violência e a necessidade de democratização dos meios de comunicação.

O Fórum Social e Popular da Tríplice Fronteira contou com diversas organizações sociais. Foto: Amilton Farias/Fórum Social da Tríplice Fronteira.

O V Fórum Social e Popular da Tríplice Fronteira encerrou sua edição com a divulgação de uma carta pública contundente. O documento é resultado de dois dias de escuta e análise da conjuntura política e social da região trinacional e de países da América Latina, e expõe as raízes das violências sofridas por povos do campo, mulheres, crianças e comunidades periféricas.

O Fórum faz um apelo enfático pela democratização dos meios de comunicação, argumentando que as realidades vivenciadas e as diversas formas de violência são frequentemente ocultadas ou negligenciadas por aqueles que controlam a informação. A carta finaliza com um forte repúdio à violência direcionada a lideranças políticas e sociais que atuam na defesa dos direitos humanos, da terra e da justiça social.

Em um gesto de solidariedade internacional, o Fórum aderiu à Campanha “Onde Está Lichita?”. A campanha busca o paradeiro de Lichita Villalba, uma adolescente de 14 anos, filha de líderes da resistência camponesa no Paraguai, sequestrada por um destacamento da Força Tarefa Conjunta (FTC), das forças armadas paraguaias. A operação também resultou na morte de outras duas crianças de 11 anos, María e Lilian Mariana. O crime, ocorrido há quatro anos, é denunciado como parte de uma política de perseguição e extermínio do Estado paraguaio contra a luta pela reforma agrária e contra a Família Villalba, ligada ao Exército do Povo Paraguaio (EPP). Movimentos populares em todo o mundo, incluindo o Brasil, promovem um abaixo-assinado exigindo o reaparecimento com vida de Lichita.

O Fórum também expressou seu apoio a campanhas de solidariedade com os povos da Palestina, Venezuela, Cuba, Haiti e Peru.

O documento detalha as dificuldades enfrentadas diariamente por aqueles que mais necessitam de amparo e proteção. Apesar das semelhanças nos problemas que afligem os países – como miséria, assassinatos nas periferias e o aumento da violência contra mulheres, a comunidade LGBTQIA+, crianças e povos originários –, o Fórum dedicou atenção especial às particularidades da região de fronteira. A carta critica a atuação de governos neoliberais e de extrema direita, que, segundo o Fórum, com sua defesa pública do fascismo e do nazismo, contribuem para o aumento da violência e das desigualdades sociais.

Leia a carta na íntegra:

DECLARAÇÃO DO V FÓRUM SOCIAL E POPULAR DA TRÍPLICE FRONTEIRA

As organizações populares reunidas no V Fórum Social e Popular da Tríplice Fronteira se posicionam a favor da integração regional a partir dos povos organizados e suas lutas, em solidariedade com as lutas cotidianas das maiorias trabalhadoras. Entendemos essas lutas como um enfrentamento ao imperialismo, especialmente quando vários de nossos governos apresentam elementos fascistas e ditatoriais, estando ligados a esse mesmo imperialismo.

Somos organizações camponesas, indígenas, sindicais, de Direitos Humanos, de Mulheres, de infâncias, de estudantes, educadores e de bairros populares. Somos um grupo intergeracional, lutadores de todas as idades, todos em igualdade. Esse fato nos traz grande alegria e enriquece o debate.

Nos preocupam as políticas que retrocedem os espaços estatais de apoio às maiorias populares e a consequente perda de direitos, com a cumplicidade dos três poderes. Queremos insistir na reparação histórica que as hidrelétricas devem realizar às comunidades indígenas e camponesas; é fundamental ter consciência sobre as dificuldades trazidas pelas mudanças climáticas. Nos modelos extrativistas que sofremos, nos preocupa a perda de soberania, o avanço no uso de agrotóxicos, a contaminação dos cursos d’água, da terra e dos pântanos, a desmatamento de árvores nativas e a replantação com espécies exóticas. Somos contra a mercantilização e monopolização das sementes e das terras.

Isso decorre da forte penetração e do avassalamento promovido pelo modelo agrário empresarial, que avança sobre os espaços do modelo popular camponês e sobre os territórios indígenas e seu vasto conhecimento. Por isso, queremos reexaminar a profunda atualidade e necessidade da reforma agrária integral e popular; recuperar o valor e o cuidado das sementes e seu manejo e intercâmbio por parte das comunidades.

Defendemos a necessidade da democratização da comunicação e do fortalecimento de meios alternativos e comunitários que mostrem as realidades e as lutas de nossos povos. Somente com essa comunicação haverá uma revalorização de nossas identidades populares e ancestrais e de nossa busca por memória, verdade e justiça.

Nos preocupa a violência estrutural que se evidencia no aumento da repressão às manifestações populares, na judicialização de membros das comunidades e de dirigentes; nossa gente pobre — indígenas, camponeses, crianças e mulheres — é perseguida. Nos preocupa o retorno a práticas dictatoriais nos despejos das comunidades camponesas, indígenas e de bairros; a existência de presos políticos; e os sistemas penitenciários. Sustentamos que a Participação Protagônica de Crianças, Jovens e Mulheres em espaços de tomada de decisões é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Aderimos à Campanha Onde Está Lichita; às campanhas de solidariedade com os povos da Palestina, Venezuela, Cuba, Haiti e Peru.

Propondo ações em uma agenda comum, nos apoiamos em cada uma de nossas lutas. Unidas, nossas lutas se fortalecem.

Cidade do Leste, 12 de abril de 2025.

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