{"id":44224,"date":"2026-04-28T16:41:33","date_gmt":"2026-04-28T19:41:33","guid":{"rendered":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/?p=44224"},"modified":"2026-05-29T12:03:01","modified_gmt":"2026-05-29T15:03:01","slug":"quando-vozes-anti-guerra-falam-a-linguagem-do-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/es\/quando-vozes-anti-guerra-falam-a-linguagem-do-imperio\/","title":{"rendered":"Quando vozes anti-guerra falam a linguagem do imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p class=\"post-subtitle\"><strong>Ao &#8220;equilibrar&#8221; sua condena\u00e7\u00e3o, essas vozes neutralizam sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o. Sugerem, intencionalmente ou n\u00e3o, uma forma de equival\u00eancia moral: a guerra EUA-Israel contra o Ir\u00e3 \u00e9 errada, mas o Ir\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 culpado; o genoc\u00eddio em Gaza \u00e9 horr\u00edvel, mas os palestinos tamb\u00e9m t\u00eam culpa. O resultado n\u00e3o \u00e9 equil\u00edbrio \u2014 \u00e9 paralisia.<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Por Ramzy Baroud*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma respeitada ativista de direitos humanos tem se manifestado repetidamente contra a agress\u00e3o de EUA-Israel contra o Ir\u00e3. Ela reconhece a ilegalidade da guerra e n\u00e3o hesita em conden\u00e1-la em termos claros. No entanto, quase invariavelmente, sente-se compelida a qualificar sua posi\u00e7\u00e3o, lembrando seu p\u00fablico de que o Ir\u00e3 matou \u201cdezenas de milhares de manifestantes\u201d durante recentes protestos antigovernamentais.<\/p>\n<p>O n\u00famero em si \u00e9 altamente question\u00e1vel. Mesmo estimativas amplamente citadas por reportagens internacionais \u2014 como a cobertura da Reuters em janeiro de 2026 \u2014 situam o n\u00famero de mortos nos protestos na casa dos milhares, n\u00e3o de dezenas de milhares. Mas a quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 o n\u00famero exato, nem mesmo o contexto complexo desses protestos, que come\u00e7aram como express\u00f5es genu\u00ednas de descontentamento, mas foram posteriormente explorados por diversos atores externos e internos que buscavam desestabilizar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria qualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos que se consideram progressistas, anti-guerra, liberais ou at\u00e9 mesmo de esquerda parecem incapazes de assumir uma posi\u00e7\u00e3o moral clara sobre as a\u00e7\u00f5es dos EUA e de Israel no Sul Global sem inserir essas qualifica\u00e7\u00f5es. O h\u00e1bito pode parecer inofensivo, at\u00e9 respons\u00e1vel, mas na realidade \u00e9 profundamente prejudicial. N\u00e3o \u00e9 um sinal de nuance \u2014 \u00e9 um sintoma de uma hesita\u00e7\u00e3o moral mais profunda.<\/p>\n<p>Ao qualificar sua condena\u00e7\u00e3o, essas vozes neutralizam sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o. Sugerem, intencionalmente ou n\u00e3o, uma forma de equival\u00eancia moral: a guerra EUA-Israel contra o Ir\u00e3 \u00e9 errada, mas o Ir\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 culpado; o genoc\u00eddio em Gaza \u00e9 horr\u00edvel, mas os palestinos tamb\u00e9m t\u00eam culpa. O resultado n\u00e3o \u00e9 equil\u00edbrio \u2014 \u00e9 paralisia.<\/p>\n<p>Compare isso com a clareza moral daqueles que apoiam a guerra. Sua posi\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 qualificada. \u00c9 assertiva, absoluta e frequentemente constru\u00edda sobre exageros ou falsidades evidentes, ainda assim carrega convic\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o se autossabota.<\/p>\n<p>Esse padr\u00e3o n\u00e3o \u00e9 novo. Est\u00e1 profundamente enraizado na hist\u00f3ria do discurso pol\u00edtico ocidental. Desde o bombardeio at\u00f4mico de Hiroshima, justificado como um ato necess\u00e1rio para salvar vidas, at\u00e9 as interven\u00e7\u00f5es militares da Guerra Fria em lugares como o golpe na Guatemala em 1954, onde a mudan\u00e7a de regime foi enquadrada como defesa contra o comunismo, a linguagem da moralidade tem sido consistentemente usada para legitimar a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o do Iraque oferece um dos exemplos mais claros. Saddam Hussein foi apresentado como a encarna\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do mal \u2014 o \u201cnovo Hitler\u201d \u2014 enquanto os Estados Unidos e seus aliados foram retratados como libertadores.<\/p>\n<p>De fato, autoridades americanas falaram abertamente em serem \u201crecebidas como libertadoras\u201d, mesmo quando o pa\u00eds mergulhava no caos e na viol\u00eancia extrema. Alguns anos depois, a ent\u00e3o secret\u00e1ria de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, descreveu a devasta\u00e7\u00e3o causada pela guerra israelense contra o L\u00edbano em 2006 como \u201cas dores de parto de um novo Oriente M\u00e9dio\u201d, reduzindo imenso sofrimento humano a um passo necess\u00e1rio em uma grande transforma\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Essa tradi\u00e7\u00e3o remonta ainda mais atr\u00e1s, \u00e0 era do colonialismo, quando pot\u00eancias europeias justificavam a conquista por meio de supostas miss\u00f5es humanit\u00e1rias. A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, por exemplo, foi frequentemente invocada como justificativa moral para a expans\u00e3o colonial na \u00c1frica, reinterpretando a domina\u00e7\u00e3o como benevol\u00eancia e a viol\u00eancia como dever civilizat\u00f3rio. Matar, nesse paradigma, acontece em nome de salvar; a destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada como progresso.<\/p>\n<p>Israel opera h\u00e1 muito tempo dentro desse mesmo quadro. Suas guerras t\u00eam sido consistentemente apresentadas como existenciais e necess\u00e1rias para a sobreviv\u00eancia da democracia e da pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muito antes do surgimento do Hamas, a resist\u00eancia palestina foi enquadrada por meio de r\u00f3tulos vari\u00e1veis que serviam ao mesmo prop\u00f3sito. Durante a revolta de 1936\u201339, combatentes palestinos foram descritos no discurso brit\u00e2nico e sionista como \u201cterroristas\u201d, \u201cbandidos\u201d e \u201cgangues\u201d. Em d\u00e9cadas posteriores, o r\u00f3tulo mudou \u2014 de nacionalistas para comunistas e depois islamistas \u2014 mas a l\u00f3gica subjacente permaneceu inalterada: o inimigo \u00e9 sempre ileg\u00edtimo e, portanto, qualquer viol\u00eancia contra ele \u00e9 justificada.<\/p>\n<blockquote><p>Muitos reconhecem esse padr\u00e3o, mas, em vez de expor suas fal\u00e1cias, alguns continuam a operar dentro dele, buscando uma posi\u00e7\u00e3o \u201cequilibrada\u201d enquanto ainda se apresentam como anti-guerra ou at\u00e9 pr\u00f3-palestinos. Reconhecem crimes israelenses, mas sentem-se compelidos a condenar o \u201cterrorismo\u201d palestino. Op\u00f5em-se \u00e0s pol\u00edticas israelenses, mas insistem em se distanciar do Hamas e de outros, como se a resist\u00eancia palestina existisse fora da realidade hist\u00f3rica e pol\u00edtica que a produziu. Falam de \u201cextremistas dos dois lados\u201d, como se figuras como Itamar Ben-Gvir e um combatente palestino em Gaza pudessem ser comparadas de forma significativa.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tais posi\u00e7\u00f5es podem parecer defens\u00e1veis isoladamente, mas tornam-se muito menos convincentes quando vistas em outros contextos. Ap\u00f3s os ataques de 11 de setembro, os Estados Unidos exigiram \u2014 e receberam \u2014 solidariedade incondicional. O mesmo ocorreu ap\u00f3s os atentados de 7 de julho de 2005 em Londres e o ataque de 7 de janeiro de 2015 ao Charlie Hebdo em Paris. Nesses momentos, n\u00e3o havia expectativa de que as v\u00edtimas fossem primeiro contextualizadas ou que a solidariedade fosse qualificada. Milh\u00f5es expressaram apoio sem hesita\u00e7\u00e3o, sem ressalvas, sem necessidade de demonstrar equil\u00edbrio moral.<\/p>\n<p>Esse padr\u00e3o n\u00e3o se aplica a outros. N\u00e3o se aplica ao Ir\u00e3, ao Iraque, ao Afeganist\u00e3o, \u00e0 Venezuela \u2014 e certamente n\u00e3o a Gaza.<\/p>\n<p>Caso voc\u00ea esteja se perguntando: a guerra EUA-Israel contra o Ir\u00e3 j\u00e1 matou 3.753 pessoas e feriu cerca de 26.500 desde 28 de fevereiro de 2026. Se os americanos experimentassem isso na mesma escala, equivaleria a cerca de 12.000 mortos e 85.000 feridos \u2014 quatro vezes mais que o 11 de Setembro, apenas em n\u00famero de mortos, e com um n\u00edvel de ferimentos muito superior ao daquela trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Em Gaza, a escala \u00e9 ainda mais impressionante. Mais de 72.000 palestinos foram mortos, mais de 172.000 feridos e pelo menos 10.000 permanecem desaparecidos \u2014 muitos provavelmente soterrados sob os escombros. Acredita-se amplamente que o n\u00famero real seja significativamente maior. Ajustado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, isso equivaleria a aproximadamente 236.000 mortos, mais de meio milh\u00e3o de feridos e dezenas de milhares de desaparecidos \u2014 cerca de 80 vezes o n\u00famero de mortos do 11 de Setembro.<\/p>\n<p>E, ainda assim, mesmo diante de n\u00fameros t\u00e3o esmagadores, o impulso de qualificar permanece.<\/p>\n<blockquote><p>Para muitos ativistas ocidentais, essa qualifica\u00e7\u00e3o funciona como uma forma de prote\u00e7\u00e3o. Permite que mantenham um senso de autoridade moral dentro de suas pr\u00f3prias sociedades sem arriscar sua posi\u00e7\u00e3o profissional ou social. Ao condenar a viol\u00eancia enquanto simultaneamente se distanciam das v\u00edtimas, ocupam um terreno intermedi\u00e1rio seguro \u2014 que parece baseado em princ\u00edpios, mas que, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o muda nada.<\/p><\/blockquote>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de ret\u00f3rica; reflete um problema estrutural mais profundo. Mesmo aqueles que se op\u00f5em \u00e0 guerra frequentemente o fazem dentro de um quadro moldado pelos pr\u00f3prios sistemas de poder que afirmam desafiar. Sua linguagem, por mais cr\u00edtica que possa soar, ainda ecoa a gram\u00e1tica moral do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Como escreveu o falecido intelectual palestino Edward Said em seu ensaio \u201cThe Essential Terrorist\u201d, o \u201cterrorismo\u201d adquiriu \u201cum status extraordin\u00e1rio no discurso p\u00fablico americano\u201d e \u201csubstituiu o comunismo como inimigo p\u00fablico n\u00famero um\u201d, fornecendo um r\u00f3tulo flex\u00edvel por meio do qual inimigos s\u00e3o constru\u00eddos e a viol\u00eancia contra eles \u00e9 normalizada.<\/p>\n<p>Da mesma forma, cr\u00edticos da chamada \u201cinterven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d argumentam h\u00e1 muito tempo que a pr\u00f3pria linguagem dos direitos humanos tem sido repetidamente mobilizada para justificar a guerra, transformando a preocupa\u00e7\u00e3o moral em um instrumento conveniente de domina\u00e7\u00e3o, em vez de um desafio genu\u00edno a ela.<\/p>\n<p>Sem honestidade, sem contexto e sem coragem para falar com clareza, a conversa n\u00e3o pode avan\u00e7ar. A necessidade constante de qualificar \u2014 de equilibrar, suavizar, distanciar \u2014 n\u00e3o promove a justi\u00e7a. Ela a obscurece.<\/p>\n<p>Portanto, da pr\u00f3xima vez que algu\u00e9m se encontrar condenando o genoc\u00eddio em Gaza ou a agress\u00e3o EUA-Israel contra o Ir\u00e3, vale a pena resistir a esse impulso. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de diluir a verdade para torn\u00e1-la aceit\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de neutralizar a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o moral para parecer razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>E, se isso n\u00e3o puder ser feito \u2014 se a condena\u00e7\u00e3o sempre vier acompanhada de condi\u00e7\u00f5es \u2014 ent\u00e3o talvez seja melhor permanecer em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p><em>* Dr. Ramzy Baroud \u00e9 jornalista, autor e editor do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.palestinechronicle.com\/the-cowardice-of-qualification\/\"><span style=\"color: #ff0000;\">The Palestine Chronicle<\/span><\/a>, onde este artigo foi publicado em 19\/04\/2026. \u00c9 autor de oito livros. Seu livro mais recente, \u201cBefore the Flood\u201d, foi publicado pela Seven Stories Press. Entre suas outras obras est\u00e3o \u201cOur Vision for Liberation\u201d, \u201cMy Father was a Freedom Fighter\u201d e \u201cThe Last Earth\u201d. Baroud \u00e9 pesquisador s\u00eanior n\u00e3o residente no Center for Islam and Global Affairs (CIGA).<\/em><\/p>\n<p>___<\/p>\n<p><strong>As opini\u00f5es expressas neste artigo s\u00e3o de responsabilidade do autor (a) e n\u00e3o reflete necessariamente a nossa pol\u00edtica editorial. O Fronteira Livre adota os princ\u00edpios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo cr\u00edtico e independ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Publicado originalmente no portal: <span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/fepal.com.br\/\">https:\/\/fepal.com.br\/<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao &#8220;equilibrar&#8221; sua condena\u00e7\u00e3o, essas vozes neutralizam sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o. 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