{"id":40967,"date":"2026-03-07T14:33:34","date_gmt":"2026-03-07T17:33:34","guid":{"rendered":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/?p=40967"},"modified":"2026-05-29T12:09:55","modified_gmt":"2026-05-29T15:09:55","slug":"8m-a-lei-avanca-mas-o-sangue-feminino-continua-a-jorrar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/es\/8m-a-lei-avanca-mas-o-sangue-feminino-continua-a-jorrar\/","title":{"rendered":"8M: A lei avan\u00e7a, mas o sangue feminino continua a jorrar"},"content":{"rendered":"<p data-path-to-node=\"5\"><em><b data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"0\">Por Amilton Farias &#8211; Opini\u00e3o<\/b><\/em><\/p>\n<p data-path-to-node=\"6\">Neste domingo, 8 de mar\u00e7o, as ruas de Foz do Igua\u00e7u e de todo o Brasil ser\u00e3o ocupadas por um grito que n\u00e3o \u00e9 apenas de celebra\u00e7\u00e3o, mas de sobreviv\u00eancia. O Dia Internacional da Mulher Trabalhadora chega em 2026 com um cen\u00e1rio paradoxal: nunca tivemos leis t\u00e3o rigorosas contra o feminic\u00eddio em todo o planeta, <strong>no entanto, nunca a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a foi t\u00e3o latente.<\/strong><\/p>\n<p data-path-to-node=\"7\">Ao olharmos para o mapa global da legisla\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, percebemos que o mundo cansou de tratar o assassinato de mulheres como &#8220;crime passional&#8221; ou homic\u00eddio comum. <strong>O endurecimento das penas \u00e9 uma realidade que atravessa oceanos, mas que nos obriga a questionar: a puni\u00e7\u00e3o severa \u00e9 o fim do caminho ou apenas o in\u00edcio de uma reforma cultural que ainda<\/strong> <strong>n\u00e3o aconteceu?<\/strong><\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"3\"><b data-path-to-node=\"3\" data-index-in-node=\"0\">O perigo mora ao lado (e no interior)<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"4\">A realidade das estat\u00edsticas brasileiras, atualizada em mar\u00e7o de 2026 pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, \u00e9 um soco no est\u00f4mago: os feminic\u00eddios cresceram 4,7% no \u00faltimo ano, totalizando 1.568 v\u00edtimas. <strong>O dado mais perturbador \u00e9 que 8 em cada 10 crimes s\u00e3o cometidos por parceiros ou ex-companheiros, e mais de 66% das mortes ocorrem dentro da pr\u00f3pria resid\u00eancia.<\/strong> Para muitas mulheres, o lar n\u00e3o \u00e9 um ref\u00fagio, mas o local de maior risco, onde objetos comuns como facas s\u00e3o as armas de um desfecho anunciado.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"5\">Esse cen\u00e1rio revela ainda uma ferida racial e territorial profunda. <strong>Mulheres negras representam 62,6% das v\u00edtimas, evidenciando uma vulnerabilidade socioecon\u00f4mica que o Estado insiste em n\u00e3o enxergar.<\/strong> Al\u00e9m disso, h\u00e1 um &#8220;apartheid&#8221; de prote\u00e7\u00e3o entre as capitais e o interior: <strong>cidades com at\u00e9 20 mil habitantes registram taxas de feminic\u00eddio 28,5% superiores \u00e0 m\u00e9dia nacional.<\/strong> Nestes pequenos munic\u00edpios, onde vivem 41% das brasileiras, a rede de prote\u00e7\u00e3o \u00e9 quase inexistente. <strong>Apenas 5% dessas cidades possuem Delegacias Especializadas e somente 3% contam com Casas Abrigo.<\/strong><\/p>\n<p data-path-to-node=\"6\">No interior, a mulher enfrenta um c\u00e1rcere duplo. Al\u00e9m da aus\u00eancia de equipamentos p\u00fablicos, ela lida com o julgamento social e o medo da exposi\u00e7\u00e3o em comunidades onde &#8220;todos se conhecem&#8221;. <strong>Buscar ajuda, nesses locais, muitas vezes significa enfrentar n\u00e3o apenas o agressor, mas toda uma estrutura familiar e comunit\u00e1ria que pressiona pelo sil\u00eancio.<\/strong> Sem sigilo e sem servi\u00e7os especializados para avaliar o risco, muitas trajet\u00f3rias de viol\u00eancia permanecem invis\u00edveis at\u00e9 que se transformem em mais um n\u00famero na estat\u00edstica de 13.703 vidas ceifadas desde a cria\u00e7\u00e3o da Lei do Feminic\u00eddio em 2015.<\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"8\"><b data-path-to-node=\"8\" data-index-in-node=\"0\">O mundo contra o feminic\u00eddio: Do ergastolo \u00e0 pena capital<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"9\">Pa\u00edses de diferentes blocos pol\u00edticos t\u00eam adotado a for\u00e7a m\u00e1xima do Estado contra quem mata pelo controle, posse ou \u00f3dio ao g\u00eanero feminino.<\/p>\n<ul data-path-to-node=\"10\">\n<li>\n<p data-path-to-node=\"10,0,0\"><b data-path-to-node=\"10,0,0\" data-index-in-node=\"0\">It\u00e1lia:<\/b> Recentemente, em um movimento de unidade hist\u00f3rica, o Parlamento italiano aprovou a pris\u00e3o perp\u00e9tua (<i data-path-to-node=\"10,0,0\" data-index-in-node=\"109\">ergastolo<\/i>) para crimes de feminic\u00eddio. \u00c9 uma resposta direta ao clamor social europeu contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p data-path-to-node=\"10,1,0\"><b data-path-to-node=\"10,1,0\" data-index-in-node=\"0\">Argentina:<\/b> Nossos vizinhos foram pioneiros com a Lei 26.791, que estabelece a pris\u00e3o perp\u00e9tua para o agressor, seja ele c\u00f4njuge ou algu\u00e9m motivado pelo g\u00eanero da v\u00edtima.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p data-path-to-node=\"10,2,0\"><b data-path-to-node=\"10,2,0\" data-index-in-node=\"0\">Bol\u00edvia e Costa Rica:<\/b> Na Bol\u00edvia, a Lei 348 imp\u00f5e 30 anos de reclus\u00e3o sem direito a indulto, enquanto a Costa Rica mant\u00e9m-se como o farol legislativo que abriu as portas para essas defini\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina ainda em 2007.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p data-path-to-node=\"10,3,0\"><b data-path-to-node=\"10,3,0\" data-index-in-node=\"0\">Extremo Oriente e Oriente M\u00e9dio:<\/b> Em na\u00e7\u00f5es como China, Ir\u00e3 e Ar\u00e1bia Saudita, o feminic\u00eddio \u00e9 frequentemente punido com a pena de morte, enquadrado em homic\u00eddios qualificados de extrema gravidade.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<h3 data-path-to-node=\"11\"><b data-path-to-node=\"11\" data-index-in-node=\"0\">Brasil: O &#8220;Pacote Antifeminic\u00eddio&#8221; e o abismo da realidade<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"12\">No Brasil, demos um passo legislativo importante com a recente Lei 14.994\/2024. Agora, o feminic\u00eddio \u00e9 um crime aut\u00f4nomo e hediondo, com penas que saltaram para o patamar de <b data-path-to-node=\"12\" data-index-in-node=\"174\">20 a 40 anos de pris\u00e3o<\/b>. \u00c9 a maior pena m\u00e1xima do nosso C\u00f3digo Penal.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"13\">Entretanto, como jornalista e cidad\u00e3o que acompanha a realidade da nossa Fronteira, preciso pontuar: <b data-path-to-node=\"13\" data-index-in-node=\"101\">a lei brasileira, embora robusta no papel, ainda carece de avan\u00e7os estruturais.<\/b> Aumentar a pena ap\u00f3s o crime cometido \u00e9 necess\u00e1rio, <strong>mas \u00e9 o &#8220;rem\u00e9dio para o corpo j\u00e1 sem vida&#8221;.<\/strong> Nosso sistema ainda falha no <b data-path-to-node=\"13\" data-index-in-node=\"306\">antes<\/b>. Carecemos de uma rede de prote\u00e7\u00e3o que realmente funcione nas madrugadas, quando a mulher liga para o 190 com uma medida protetiva na m\u00e3o e o agressor na porta de casa. Carecemos de delegacias especializadas 24 horas em todas as regi\u00f5es e de um sistema judici\u00e1rio que n\u00e3o revitimize a mulher no balc\u00e3o de atendimento.<\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"3\"><b data-path-to-node=\"3\" data-index-in-node=\"0\">A\u00a0fronteira mais movimentada do Brasil<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"15\">Aqui na Fronteira, o desafio \u00e9 triplicado. A vulnerabilidade de mulheres migrantes e a complexidade de uma regi\u00e3o trinacional exigem mais do que leis; exigem coopera\u00e7\u00e3o internacional e pol\u00edticas p\u00fablicas transfronteiri\u00e7as.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"4\">Na fronteira mais movimentada do Brasil, onde o fluxo de mercadorias e pessoas dita o ritmo da economia, o movimento em defesa da vida das mulheres precisa ser igualmente intenso. N\u00e3o basta debatermos infraestrutura, log\u00edstica e tributa\u00e7\u00e3o se ignorarmos que este territ\u00f3rio \u00e9, tamb\u00e9m, um corredor de vulnerabilidades. <strong>\u00c9 urgente que os Conselhos de Desenvolvimento e as inst\u00e2ncias de governan\u00e7a trinacional coloquem no centro da pauta a situa\u00e7\u00e3o da mulher na fronteira.<\/strong><\/p>\n<p data-path-to-node=\"5\">A viol\u00eancia de g\u00eanero aqui ganha contornos complexos: <strong>o tr\u00e1fico de pessoas, a explora\u00e7\u00e3o sexual e a profunda desigualdade salarial s\u00e3o engrenagens de um sistema que silencia vozes femininas entre as pontes que nos unem aos vizinhos.<\/strong> Precisamos de pol\u00edticas p\u00fablicas transfronteiri\u00e7as e de um compromisso real das lideran\u00e7as locais. <strong>O desenvolvimento que buscamos para Foz do Igua\u00e7u e regi\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 pleno quando a seguran\u00e7a de cada mulher for t\u00e3o priorit\u00e1ria quanto o pr\u00f3ximo recorde de turismo ou de com\u00e9rcio.<\/strong> O progresso n\u00e3o pode caminhar sobre o rastro da viol\u00eancia e do feminic\u00eddio.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"17\"><strong>A legisla\u00e7\u00e3o brasileira avan\u00e7ou para punir, mas a sociedade brasileira precisa avan\u00e7ar para educar e prevenir.<\/strong> Que as penas de 40 anos sirvam de aviso, <strong>mas que a nossa presen\u00e7a nas ruas amanh\u00e3 sirva de escudo para que nenhuma mulher precise mais ser estat\u00edstica de um C\u00f3digo Penal.<\/strong><\/p>\n<p data-path-to-node=\"17\">Amanh\u00e3, a partir das <b data-path-to-node=\"16\" data-index-in-node=\"21\">09h<\/b>, estaremos concentrados na <b data-path-to-node=\"16\" data-index-in-node=\"52\">Quintino Bocaiuva com a JK<\/b>. Estaremos l\u00e1 para lembrar que o feminic\u00eddio \u00e9 o \u00faltimo est\u00e1gio de um ciclo <strong>de viol\u00eancia que come\u00e7a no silenciamento, no controle financeiro e no desrespeito cotidiano.<\/strong><\/p>\n<p data-path-to-node=\"18\"><b data-path-to-node=\"18\" data-index-in-node=\"0\">Pela vida das mulheres, pelo fim do feminic\u00eddio. Nos vemos na Pra\u00e7a da Paz.<\/b><\/p>\n<p data-path-to-node=\"18\">____<\/p>\n<p data-path-to-node=\"18\"><em>*Amilton Farias \u00e9 jornalista e editor chefe do Portal Fronteira Livre<\/em><\/p>\n<p data-path-to-node=\"18\">____<\/p>\n<p data-path-to-node=\"22\"><strong><em>Este texto reflete a opini\u00e3o institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/fronteiralivre.com.br\/fronteira\/pioneirismo-feminino-e-tema-de-resgate-historico-no-museu-da-imprensa<\/p>\n<div class=\"responsive-container\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Amilton Farias &#8211; Opini\u00e3o Neste domingo, 8 de mar\u00e7o, as ruas de Foz do Igua\u00e7u e de todo o Brasil ser\u00e3o ocupadas por um grito que n\u00e3o \u00e9 apenas de celebra\u00e7\u00e3o, mas de sobreviv\u00eancia. 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