{"id":35797,"date":"2025-12-12T12:50:47","date_gmt":"2025-12-12T15:50:47","guid":{"rendered":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/?p=35797"},"modified":"2025-12-12T12:50:47","modified_gmt":"2025-12-12T15:50:47","slug":"as-veias-abertas-da-vila-do-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/es\/as-veias-abertas-da-vila-do-chaves\/","title":{"rendered":"As veias abertas da vila do Chaves"},"content":{"rendered":"<p><strong>*Por <\/strong><strong><em>Marcelo Ferraz, no Blog Boitempo <\/em><\/strong><strong>\u2013 Opini\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Superados momentaneamente os desacordos econ\u00f4micos entre os herdeiros de Roberto Bola\u00f1os (o \u201cChespirito\u201d) e a emissora mexicana Televisa, o seriado\u00a0<strong><em>Chaves<\/em><\/strong>\u00a0ressurgiu, com f\u00f4lego renovado, em nossas m\u00faltiplas telas. E est\u00e1 mesmo em toda parte: na TV aberta, na fechada (que, dizem, ainda existe) e em todos os principais\u00a0<em>streamings\u00a0<\/em>dispon\u00edveis no Brasil. A en\u00e9sima reestreia do menino do barril veio acompanhada do lan\u00e7amento da s\u00e9rie\u00a0<em>Sem querer querendo\u00a0<\/em>(2025), que acompanha a hist\u00f3ria de seu criador e protagonista numa biografia ficcional, semi-hagiogr\u00e1fica, que obteve consider\u00e1vel sucesso, reavivando tamb\u00e9m as pol\u00eamicas de bastidores e os mitos atraentes que sempre rondaram a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>No in\u00edcio dos anos 1970,\u00a0<em>Chaves<\/em>\u00a0j\u00e1 trazia, de nascimento, uma aura nost\u00e1lgica. Seja nos aspectos t\u00e9cnicos ou narrativos, a obra mais c\u00e9lebre de Bola\u00f1os nunca teve a pretens\u00e3o de estar \u00e0 frente de seu tempo, ao contr\u00e1rio, seu trunfo sempre foi estabelecer certa dist\u00e2ncia (e mesmo certa incongru\u00eancia) das f\u00f3rmulas que a ind\u00fastria cultural vendia por atacado a espectadores cada vez mais sedentos por novidades estridentes.<\/strong>\u00a0Seguir despertando interesse constante no p\u00fablico at\u00e9 os anos 1990 \u2013 sobrevivendo nas grades televisivas, ao lado de desenhos animados hipercoloridos e de ritmo fren\u00e9tico \u2013 foi uma proeza quase inexplic\u00e1vel. Agora, continuar sendo relevante no tempo hipn\u00f3tico dos\u00a0<em>tablets\u00a0<\/em>e celulares \u2013 na contram\u00e3o dos algoritmos e para l\u00e1 do limiar do politicamente correto \u2013 \u00e9 realmente um fen\u00f4meno que exige de n\u00f3s uma reflex\u00e3o mais demorada, para tentar sondar algumas das raz\u00f5es desse prod\u00edgio.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>Chaves<\/em>\u00a0alcan\u00e7ou, para todos os efeitos, a condi\u00e7\u00e3o de um\u00a0<strong>cl\u00e1ssico cultural da Am\u00e9rica Latina<\/strong>, uma obra que habita o nosso imagin\u00e1rio coletivo e reverbera mesmo entre quem nunca a assistiu ou em quem n\u00e3o v\u00ea nenhuma gra\u00e7a nas trapalhadas do menino \u00f3rf\u00e3o que cativou tantos admiradores ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Dentre as defini\u00e7\u00f5es que o escritor italiano \u00cdtalo Calvino prop\u00f5e para um cl\u00e1ssico est\u00e1 justamente a de que s\u00e3o obras que \u201cse ocultam nas dobras da mem\u00f3ria, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual\u201d. Por isso, ainda segundo o autor, um cl\u00e1ssico nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer, pois novas camadas de sentido manifestam-se nele ao longo dos anos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Assim, todo cl\u00e1ssico estimula uma nuvem de discursos cr\u00edticos e hip\u00f3teses interpretativas em torno de si e, ao mesmo tempo, a repele para longe.\u00a0<strong><em>Chaves<\/em>, portanto,<\/strong>\u00a0<strong>\u00e9 um cl\u00e1ssico tamb\u00e9m porque recebe e estimula essas diversas leituras: seu protagonista pode ser um Cristo terceiro-mundista ou um p\u00edcaro p\u00f3s-industrial<\/strong>, passando pela encarna\u00e7\u00e3o de Di\u00f3genes de Sinope, o fil\u00f3sofo do barril; a vila pode ser uma meton\u00edmia do Imp\u00e9rio Asteca ou uma rocambolesca alegoria do inferno; o estilo de Bola\u00f1os pode ser acercado ao de William Shakespeare ou Charles Chaplin, mas tamb\u00e9m ao de Cantinflas e Victor Hugo, sem perder de vista\u00a0<span style=\"color: #ff0000;\"><strong><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/tempos-dificeis-152348?srsltid=AfmBOor2CuywLYrVI6rH9Lot6kb5Czbkcco-oV4nvajnRsXudpG7KSg1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Charles Dickens<\/a>\u00a0<\/strong><\/span>e Mark Twain. Esses diferentes \u00e2ngulos de leitura podem ser complementares ou conflitantes, mas nenhum deles, e muito menos a soma extravagante de suas contribui\u00e7\u00f5es, nos dispensa do desafio de formular novas investidas interpretativas. Entre tantas hip\u00f3teses sugestivas ou mirabolantes, a que defendemos neste artigo busca for\u00e7a em sua obviedade:\u00a0<strong>a constru\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Chaves<\/em>\u00a0tem como base a representa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de um tecido pol\u00edtico muito concreto e exemplar, do qual ela extrai tipos sociais emblem\u00e1ticos da condi\u00e7\u00e3o de subdesenvolvimento latino-americano. Dessa maneira, os personagens assumem perfis pol\u00edticos e sociol\u00f3gicos muito precisos, que encenam o tortuoso processo de forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social do continente.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_35799\" aria-describedby=\"caption-attachment-35799\" style=\"width: 1140px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35799 size-full\" src=\"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Chaves-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"641\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-35799\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/Blog Boitempo<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Dizer que a\u00a0<strong>vila do Chaves \u00e9 um microcosmo da Am\u00e9rica Latina<\/strong>\u00a0n\u00e3o constitui grande novidade. Mas ultrapassar o efeito ret\u00f3rico dessa afirma\u00e7\u00e3o e buscar implica\u00e7\u00f5es anal\u00edticas mais profundas \u00e9 um esfor\u00e7o que, at\u00e9 onde se saiba, ainda n\u00e3o foi empreendido a contento. \u00c9 pertinente reconhecer que esse microcosmo projeta, em suas intera\u00e7\u00f5es din\u00e2micas, um quadro social altamente cr\u00edtico e tenso, dando contorno aos conflitos de classe, aos choques geracionais, \u00e0s\u00a0<strong>disputas de poder<\/strong>\u00a0e \u00e0s\u00a0<strong>alternativas hist\u00f3ricas<\/strong>\u00a0que embalavam o debate latino-americano da d\u00e9cada de 1970. H\u00e1, assim, uma perspectiva popular e anti-imperialista, profundamente enraizada no pensamento cr\u00edtico daquela \u00e9poca, que pulsa nas nervuras mais complexas do seriado.\u00a0<strong>Ali\u00e1s, \u00e9 dif\u00edcil saber at\u00e9 que ponto a nostalgia que a obra ainda desperta hoje abarca, num plano inconsciente, o luto dessas causas perdidas, esvaziadas por d\u00e9cadas de neoliberalismo implac\u00e1vel e desumanizador.<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Restam ainda dois \u00faltimos esclarecimentos preliminares a serem feitos. O primeiro \u00e9 que n\u00e3o ignoramos as controv\u00e9rsias pol\u00edticas de seu autor, Roberto Bola\u00f1os. Sua vis\u00e3o de mundo \u00e9 marcada por uma perspectiva liberal e cat\u00f3lica, sem nenhuma inclina\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio, faz parte de sua trajet\u00f3ria uma infame (e apote\u00f3tica) apresenta\u00e7\u00e3o de sua trupe no Chile de Pinochet, em pleno Est\u00e1dio Nacional, ainda com o sangue de milhares de opositores manchando aquele que foi o maior centro de execu\u00e7\u00f5es da ditadura. Da mesma forma, Chespirito demonstrava orgulho de transitar com influ\u00eancia pelos meios empresariais mexicanos e tratou sempre a sua obra como um produto comercial t\u00edpico, do qual buscou extrair o m\u00e1ximo de prest\u00edgio e lucro. Quanto a essa imagem, aparentemente incompat\u00edvel com as hip\u00f3teses que formularemos sobre sua obra, n\u00e3o custa lembrar que grandes produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas extrapolam as prefer\u00eancias ideol\u00f3gicas de seus autores, levando a formas de representa\u00e7\u00e3o complexas, irredut\u00edveis, pois contradit\u00f3rias, aos des\u00edgnios mais imediatos de quem as produz.\u00a0<strong>Como observador depurado e sens\u00edvel da realidade \u00e0 sua volta, e com um talento de fato assombroso para a s\u00e1tira social, Bola\u00f1os criou uma obra que incorpora com vigor certo esp\u00edrito do tempo, incluindo o efervescente debate sobre as particularidades e potencialidades da Am\u00e9rica Latina.<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em segundo lugar, os caracteres que tentaremos desvendar n\u00e3o correspondem a modelos coerentemente mantidos ao longo de todos os epis\u00f3dios: h\u00e1, tamb\u00e9m aqui, contradi\u00e7\u00f5es e desdobramentos que revelam certa flexibilidade no tratamento das personagens, seja por necessidades narrativas, comerciais ou pelo amadurecimento que os pr\u00f3prios atores v\u00e3o imprimindo sobre elas. O leitor dever\u00e1 compreender os tipos s\u00f3cio-pol\u00edticos examinados a seguir n\u00e3o como moldes estanques (se assim fosse, a s\u00e9rie certamente seria menos interessante), mas como uma base sociol\u00f3gica fundamental, ainda mais potente porque nem sempre se manifesta didaticamente para o p\u00fablico \u2013 didatismo que ocorre, por exemplo, em\u00a0<em>Chapolin Colorado<\/em>, obra de Bola\u00f1os em que a latinidade do her\u00f3i e o contraste com um rival estadunidense s\u00e3o demarcados explicitamente.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Comecemos, ent\u00e3o, pelo Professor Girafales. Na leitura aqui proposta, ele representa certa tradi\u00e7\u00e3o intelectual latino-americana. N\u00e3o por acaso, algumas das principais marcas de sua personalidade s\u00e3o a vaidade, a presun\u00e7\u00e3o e a prolixidade. \u201cEu s\u00f3 me equivoquei uma vez, quando pensei que tinha me equivocado\u201d, diz, em frase antol\u00f3gica, um homem \u201cculto\u201d e verdadeiramente convencido de sua superioridade em rela\u00e7\u00e3o aos moradores da vila. Como n\u00e3o lembrar aqui de seu impag\u00e1vel \u201celogio\u201d aos dotes art\u00edsticos de Seu Madruga, quando este dirige a pe\u00e7a teatral das crian\u00e7as? Tal superioridade se manifesta basicamente atrav\u00e9s do vocabul\u00e1rio pomposo ou do mero argumento de autoridade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_35800\" aria-describedby=\"caption-attachment-35800\" style=\"width: 1140px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-35800 size-full\" src=\"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Chaves-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"683\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-35800\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/Blog Boitempo<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>H\u00e1, dessa maneira, um paralelo ir\u00f4nico com os padr\u00f5es das elites intelectuais da Am\u00e9rica Latina do s\u00e9culo XIX, evidente no modo como o nosso mestre Lingui\u00e7a encarna os trejeitos anacr\u00f4nicos de um fil\u00f3sofo rom\u00e2ntico de prov\u00edncia.<\/strong>\u00a0Tais expoentes da sapi\u00eancia p\u00f3s-colonial viviam na Europa e de l\u00e1 produziam suas interpreta\u00e7\u00f5es sobre a realidade do continente, da mesma forma que\u00a0<strong>o Professor Girafales n\u00e3o mora na vila e, ao mesmo tempo (talvez justamente por isso), n\u00e3o se cansa de apresentar \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d para os problemas enfrentados pelos moradores; solu\u00e7\u00f5es que s\u00e3o, via de regra, frustradas pela realidade local assim que aplicadas<\/strong>. Aturdido pelo \u201ccomplexo de Nabuco\u201d \u2013 refer\u00eancia ao drama do intelectual latino-americano dividido entre a \u201craz\u00e3o europeia\u201d e a vida \u201cselvagem e pitoresca\u201d do seu lugar natal \u2013 Girafales sabe que a vila \u00e9 um lugar de passagem, onde pode descolar um caf\u00e9, receber alguma li\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do Seu Madruga ou alimentar seu enorme ego de erudito pelo contraste com a urg\u00eancia de sobreviv\u00eancia dos moradores que de fato a habitam.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>Dona Florinda<\/strong>\u00a0sim, \u00e9 claro, vive na Vila. Muito a contragosto, mas vive. Ela \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o de nossas elites tradicionais, assim como ela, altamente violentas e autorit\u00e1rias.\u00a0<strong>Est\u00e1 sempre a anunciar o plano de deixar para atr\u00e1s aquele lugar sem futuro, mas nunca cumpre tal promessa \u2013 talvez porque l\u00e1 no fundo prefira, como muitos de sua classe, ser a rainha da gentalha a virar chacota nos sal\u00f5es da gr\u00e3-finagem internacional.<\/strong>\u00a0A caracteriza\u00e7\u00e3o f\u00edsica da personagem refor\u00e7a esse descompasso, com o avental indicando seu v\u00ednculo com o trabalho dom\u00e9stico e o cabelo a ser eternamente e artificialmente preparado para um dia apote\u00f3tico que nunca vir\u00e1.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Num retrato preciso dessas elites, a renda e a posi\u00e7\u00e3o social de Dona Florinda n\u00e3o adv\u00e9m do suor de seu trabalho ou de uma no\u00e7\u00e3o qualquer de sucesso nos termos de uma sociedade liberal. Toda a sua autoimagem de poder e superioridade baseia-se exclusivamente na pens\u00e3o que recebe pelo finado marido \u2013 sim, por tr\u00e1s de toda jact\u00e2ncia, ela \u00e9 dependente do Estado. Quando se arrisca a empreender, tornando-se dona de restaurante, seu fracasso \u00e9 avassalador. Numa alegoria hil\u00e1ria de nossa trajet\u00f3ria pol\u00edtico-econ\u00f4mica, a s\u00e9rie mostra a desastrada tentativa de transi\u00e7\u00e3o da elite tradicional para uma burguesia moderna, evidenciando seu profundo desconhecimento e desprezo pelo p\u00fablico do restaurante \u2013 sempre apontado por ela como o culpado pela derrocada do neg\u00f3cio. Ali\u00e1s, talvez ela prefira mesmo fracassar a conhecer sua clientela, pois para isso precisaria sair de sua imagin\u00e1ria posi\u00e7\u00e3o de altivez e reconhecer a humanidade desse povo do qual, no fundo, ela depende. Em outras palavras, a estupidez de Dona Florinda \u00e9 construir um restaurante pretensamente refinado \u2013 sem, \u00e9 claro, modernizar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, como o epis\u00f3dio da greve do Chaves exibe com didatismo \u2013 enquanto o p\u00fablico s\u00f3 deseja um bom botequim.<\/p>\n<p><iframe title=\"Chaves No SBT | Reivindica\u00e7\u00e3o Salarial Para o Chaves - (1979) - Parte 2 - Alta Qualidade HD\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uZagnuSwbzo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A hist\u00f3ria de amor entre o intelectual latino-americano (Girafales) e a elite tradicional do continente (Florinda) ocorre num intermin\u00e1vel flerte, nunca efetivamente consumado. Os dois lados desejam o relacionamento, que se mostra socialmente conveniente para ambos. Afinal, temos aqui a antiga promessa civilizat\u00f3ria de que o saber acad\u00eamico poderia atenuar a sanha predat\u00f3ria das elites \u2013 Florinda \u00e9 viol\u00eancia em estado bruto! \u2013 e operar, nas tramas do poder local, uma desejada moderniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es. Neste ensaiado casamento, o intelectual ganharia as benesses do poder econ\u00f4mico, ampliando seu prest\u00edgio e influ\u00eancia, enquanto confere a essa elite um verniz mais civilizado e erudito, o qual legitimaria, em bases menos primitivas, a sua hegemonia local. Na s\u00e9rie (e tamb\u00e9m na realidade?) esse relacionamento carnal jamais se consuma, permanecendo num namoro pudico, reencenado mecanicamente,\u00a0<em>ad nauseum<\/em>, a cada novo encontro. Talvez porque as apar\u00eancias da rela\u00e7\u00e3o sejam em si suficientes e os riscos do matrim\u00f4nio sejam consider\u00e1veis: a perda da pens\u00e3o, a limita\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia como forma absoluta de controle das elites, o receio de que o saber intelectual n\u00e3o conseguiria dominar o \u00edmpeto da for\u00e7a\u2026<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quico, por sua vez, \u00e9 o filho leg\u00edtimo dessa elite tradicional e a representa\u00e7\u00e3o dilem\u00e1tica do seu projeto de futuro. Tal condi\u00e7\u00e3o permite visualizar nele os \u00edndices hist\u00f3ricos das emergentes burguesias nacionais latino-americanas. Seus atributos principais refor\u00e7am a associa\u00e7\u00e3o: ele \u00e9 tolo, ing\u00eanuo, superprotegido, privilegiado, desprovido de ideias pr\u00f3prias. Educado para ser a proje\u00e7\u00e3o direta e absoluta da elite tradicional,\u00a0<strong>Quico precisa ser lembrado pela m\u00e3e, reiteradas vezes, de que, mesmo morando ali, n\u00e3o faz parte da vila. Mas o menino logo esquece desse seu l\u00f3cus social fundante e mistura-se de novo com as outras crian\u00e7as, num ciclo cont\u00ednuo de arrog\u00e2ncia, car\u00eancia e inseguran\u00e7a. Um dos seus bord\u00f5es principais \u2013 \u201cGentalha, gentalha, gentalha!\u201d \u2013 \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o not\u00e1vel da transmiss\u00e3o hist\u00f3rica dos valores de nossas elites econ\u00f4micas e pol\u00edticas.<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">O bord\u00e3o \u00e9 enunciado, como se sabe, logo ap\u00f3s os tabefes que Dona Florinda desfere contra o Seu Madrugada. Como a ave que ensina seu filhote a voar, ap\u00f3s a surra a m\u00e3e instiga o filho a reproduzir o gesto, enfatizando a dupla viol\u00eancia do seu ato: f\u00edsica, ao ecoar o tapa da m\u00e3e com um empurr\u00e3o, e simb\u00f3lica, ao proclamar aos berros a sua pretensa superioridade diante da esc\u00f3ria que o cerca. A insist\u00eancia no termo \u201cgentalha\u201d opera de fato como uma educa\u00e7\u00e3o de classe, como quem repete a li\u00e7\u00e3o at\u00e9 decor\u00e1-la e naturaliz\u00e1-la. O ritual envolve a fixa\u00e7\u00e3o de um mantra que claramente ele (e tamb\u00e9m o Seu Madrugada) n\u00e3o pode esquecer, sob o risco de fragilizar todas as hierarquias presentes na vila.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Apesar disso, Quico tem um comportamento imprevis\u00edvel e realmente \u00e9 dif\u00edcil saber se ele, como configura\u00e7\u00e3o em devir da classe hegem\u00f4nica que representa, ser\u00e1 um dia a c\u00f3pia quase exata da m\u00e3e e cumprir\u00e1, enfim, a passagem de bast\u00e3o, tal como ela deseja e prepara, ou se ser\u00e1 uma outra coisa ainda insond\u00e1vel. Apesar da crise de identidade \u2013 sinalizadas no desejo de brincar em p\u00e9 de igualdade com as outras crian\u00e7as, t\u00e3o recorrente como o prazer de ostentar a distin\u00e7\u00e3o dos seus brinquedos \u2013, nos momentos de maior tens\u00e3o a postura mais elementar de Quico sempre se inclina a reproduzir o padr\u00e3o comportamental da m\u00e3e, incluindo a\u00ed sua viol\u00eancia; de modo que a s\u00e9rie talvez sugira que, para essa burguesia emergente, o autorreconhecimento libert\u00e1rio como efetivo morador da vila e respons\u00e1vel pelo seu desenvolvimento, ou ao menos a expectativa de uma domina\u00e7\u00e3o menos virulenta, seja, ao fim, a bola quadrada que tantos ainda n\u00e3o cansaram de esperar\u2026<\/p>\n<figure id=\"attachment_35801\" aria-describedby=\"caption-attachment-35801\" style=\"width: 1140px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-35801 size-full\" src=\"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Chaves-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"641\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-35801\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/Blog Boitempo<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>Uma breve digress\u00e3o. Em um epis\u00f3dio est\u00e3o os tr\u00eas \u2013 Professor Girafales, Dona Florinda e Quico \u2013 comendo biscoitos na sala. Enquanto devoram vorazmente as bolachinhas, conversam sobre a mis\u00e9ria de Chaves, formulando hip\u00f3teses moralistas para explicar as injusti\u00e7as sociais.<\/strong>\u00a0Chaves est\u00e1 ao lado, observando, faminto como de costume, enquanto os tr\u00eas, hip\u00f3critas, acabam com os biscoitos, sem nem atinar para a sua exist\u00eancia. Chaves sai chorando, enquanto l\u00e1 dentro a conversa continua, talvez voltando-se para outro tema sens\u00edvel de nossa triste realidade. \u00c0s vezes uma boa cena vale por uma an\u00e1lise inteira.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Falando ainda dessas personagens vinculadas ao poder, a maior de todas (sem trocadilhos, \u00e9 claro), \u00e9 o\u00a0<strong>Seu Barriga<\/strong>. Propriet\u00e1rio daquele mundo, isto \u00e9, autoridade que paira acima do microcosmo latino-americano, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil tom\u00e1-lo como emblema dos colonialismos e imperialismos que marcam a hist\u00f3ria do continente.\u00a0<strong>Do lar de nossos personagens ao com\u00e9rcio de Dona Florinda, ele \u00e9 o verdadeiro dono de tudo.<\/strong>\u00a0Em um epis\u00f3dio marcante, ele afirma que a origem de sua riqueza remete a uma aposta feita numa luta de boxe que Seu Madruga perdeu. O sentido aqui \u00e9 lapidar: a base do \u00eaxito imperialista \u00e9 uma lucrativa aposta no subdesenvolvimento latino-americano. Uma aposta que ele n\u00e3o tem cessado de ganhar. Sim, sabemos que na sequ\u00eancia do epis\u00f3dio cresce o tom emotivo e o Seu Barriga diz para o Professor Girafales (nosso s\u00edmbolo de saber esclarecido, detrator das divers\u00f5es populares\u2026) que a aposta nunca existiu e seu gesto foi movido por pura benevol\u00eancia. Como nenhuma das duas vers\u00f5es \u00e9 atest\u00e1vel na s\u00e9rie, n\u00e3o deixa de ser sintom\u00e1tica a nossa inclina\u00e7\u00e3o a acreditar cegamente na segunda\u2026<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>Seja para amea\u00e7ar de despejo os inquilinos ou exercer sua caridade (outra forma de refor\u00e7ar sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica), Seu Barriga influencia ativamente as a\u00e7\u00f5es que ocorrem na vila, na condi\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rio supremo e indiscut\u00edvel daquele mundo, mesmo n\u00e3o vivendo nele.<\/strong>\u00a0A rela\u00e7\u00e3o do imperialismo com as elites nacionais (Florinda) \u00e9, obviamente, amistosa, j\u00e1 que ela cumpre rigorosamente o ped\u00e1gio que lhe cabe para viver naquele lugar que despreza, mantendo com Barriga uma rela\u00e7\u00e3o que, na cabe\u00e7a dela, seria entre iguais \u2013 mais ou menos como se o pagamento pontual do aluguel borrasse ideologicamente o desn\u00edvel social entre propriet\u00e1rio e inquilino. Por outro lado, apesar da estabilidade do pacto social ali vigente, em que a propriedade nunca \u00e9 questionada, h\u00e1 uma repulsa difusa a esse dom\u00ednio, sobretudo pelas pancadas que o Chaves \u2013 sem querer, mas (inconscientemente?) querendo \u2013 desfere cada vez que ele adentra na vila. Essa viol\u00eancia do dominado \u00e9 particularmente impiedosa com o Seu Barriga, fazendo dele uma esp\u00e9cie de bode expiat\u00f3rio que receber\u00e1 todo tipo de impulso violento \u201cinvolunt\u00e1rio\u201d em suas visitas para cobrar o aluguel, satisfazendo, \u00e9 claro, o tradicional gosto da audi\u00eancia em ver os poderosos se dando mal, mas tamb\u00e9m estruturando a alegoria social que identificamos na s\u00e9rie.<\/p>\n<figure id=\"attachment_35802\" aria-describedby=\"caption-attachment-35802\" style=\"width: 1140px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35802 size-full\" src=\"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Chaves-5.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"641\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-35802\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/Blog Boitempo<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Numa zona intermedi\u00e1ria entre os que exercem o poder \u2013 em diversos n\u00edveis e de variadas modalidades \u2013 e aqueles que s\u00e3o sufocados por ele, est\u00e1\u00a0<strong>Dona Clotilde<\/strong>. O roteiro \u00e9 vago na caracteriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da personagem, de modo que n\u00e3o sabemos muito sobre a origem do seu dinheiro ou qu\u00e3o remediada \u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Ela n\u00e3o atrasa o aluguel como Seu Madruga, e parece n\u00e3o sofrer grandes restri\u00e7\u00f5es materiais; por outro lado, n\u00e3o se vangloria de sua classe, como Dona Florinda, mantendo uma identifica\u00e7\u00e3o muito serena enquanto moradora da vila. Mais do que isso, demonstra efetivo interesse amoroso por Seu Madruga, um direcionamento do seu desejo er\u00f3tico que escandaliza Dona Florinda e abala, de certa forma, as hierarquias t\u00e3o rigidamente estabelecidas na vila.<\/strong>\u00a0A viv\u00eancia aberta e desinibida de sua paix\u00e3o pelo homem que representa a classe trabalhadora constitui uma afronta social, tanto por transgredir o recato imposto ao g\u00eanero feminino \u2013 sobretudo \u00e0s mulheres \u201cmaduras\u201d \u2013 como por ser, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma trai\u00e7\u00e3o de classe. Assumir o desejo, transgredir as fronteiras de sua classe, agir como uma mulher autossuficiente\u2026\u00a0<strong>Nem \u00e9 preciso ser t\u00e3o versado nas ideias de\u00a0<\/strong><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/mulheres-e-caca-as-bruxas-152719\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Silvia Federici<\/strong><\/a><\/span><strong>\u00a0para deduzirmos as ra\u00edzes hist\u00f3ricas que acionam o apelido da Bruxa do 71!<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ademais, n\u00e3o \u00e9 casual o desd\u00e9m de Seu Madruga pelas investidas fogosas de sua admiradora nada secreta, pois tal como ocorre no processo de aliena\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras, sua libido est\u00e1 totalmente voltada para as \u201cvizinhas\u201d ef\u00eameras, que v\u00eam de fora, e n\u00e3o faltam epis\u00f3dios em que ele demonstra franco desejo afetivo por sua algoz de todos os dias, Dona Florinda. Quando o desejo n\u00e3o \u00e9 libert\u00e1rio, o sonho do oprimido\u2026<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Falando mais detidamente de Seu Madruga, trata-se, como adiantamos, de um personagem ligado ao \u00e2mbito do trabalho. Por suposto, um trabalho informal, mal remunerado, muitas vezes perigoso, sempre infrut\u00edfero. \u00c9 f\u00e1cil encontrar\u00a0<em>memes<\/em>\u00a0que registram todos os numerosos e variados of\u00edcios aos quais se dedicou o nosso sofredor Madruguinha. E mesmo espectadores mais distra\u00eddos percebem que sua recusa a celebrar a \u00e9tica do trabalho como edificador da dignidade do homem tem menos a ver com a \u201cpregui\u00e7a e vagabundagem t\u00edpica das classes populares\u201d \u2013 vis\u00e3o de Dona Florinda e Seu Barriga \u2013 do que com uma farta experi\u00eancia pr\u00e1tica de que o sucesso financeiro est\u00e1 longe de ser fruto direto do esfor\u00e7o ou m\u00e9rito pessoal. Da\u00ed a sua m\u00e1xima t\u00e3o poderosa: n\u00e3o existe trabalho ruim, o ruim \u00e9 que este trabalho seja uma imposi\u00e7\u00e3o social opressiva e seus benef\u00edcios existam para usufruto de outrem. Essa intui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica t\u00e3o agu\u00e7ada n\u00e3o levar\u00e1 Seu Madruga a uma tomada de consci\u00eancia e a uma a\u00e7\u00e3o efetiva contra esse estado de coisas, mas explicar\u00e1 o seu comportamento malandro, a procurar brechas no sistema para sobreviver. Uma sobreviv\u00eancia, afinal, t\u00e3o prec\u00e1ria que nunca lhe poupar\u00e1 das pancadas aleat\u00f3rias da elite nacional ou da persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel do imperialismo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_35803\" aria-describedby=\"caption-attachment-35803\" style=\"width: 1140px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35803 size-full\" src=\"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Chaves-6.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"641\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-35803\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/Blog Boitempo<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Se Quico representa o devir da classe dominante,\u00a0<strong>Chiquinha \u00e9, por sua vez, a encena\u00e7\u00e3o do destino da classe dominada<\/strong>. A principal diferen\u00e7a \u00e9 que, por raz\u00f5es \u00f3bvias, para ela n\u00e3o est\u00e1 no horizonte seguir os passos do pai.\u00a0<strong>Enquanto Quico \u00e9 a reafirma\u00e7\u00e3o complicada da m\u00e3e, Chiquinha \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o radical do pai e de tudo. Esperta, maliciosa, destemida, provocativa, ela \u00e9 respons\u00e1vel pelos atos que geram instabilidade na vila, sendo um verdadeiro agente do caos.<\/strong>\u00a0Mais do que a malandragem reiteradamente fracassada de Seu Madruga,\u00a0<strong>Chiquinha consegue enfrentar Dona Florinda, encarando de frente os seus desaforos, indignada com a passividade do pai; consegue manipular Seu Barriga, demonstrando um afeto fingido por ele; faz de gato e sapato Quico e Chaves\u2026 Trata-se de uma energia revolucion\u00e1ria indom\u00e1vel e difusa, debochada e teatral.<\/strong>\u00a0Por isso \u00e9 ela, mais at\u00e9 do que Chaves, que mais frequentemente consegue passar ilesa pelos rebuli\u00e7os da vila: quando tortas na cara, baldes de \u00e1gua, tinta, boladas e cacetadas afetam a todos os personagens, ela costuma se desviar das confus\u00f5es que na maioria das vezes ela mesma causou. Por isso tamb\u00e9m\u00a0<strong>nos solidarizamos com suas traquinagens, mesmo as aparentemente mais maldosas e gratuitas, porque partem de um profundo mal-estar pelas injusti\u00e7as sofridas pelo pai e, diferente dele, o sil\u00eancio decoroso, ciente de seu lugar, nunca \u00e9 para ela uma op\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel<\/strong>. Chiquinha tamb\u00e9m n\u00e3o aceita ser considerada pior, devido \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o social, do que qualquer outra pessoa da vila, demonstrando uma altivez que, por consequ\u00eancia, desmascara, com deboche, a arrog\u00e2ncia de Dona Florinda. Os demais personagens t\u00eam bons motivos para tem\u00ea-la, sobretudo quando ela se reconhece nos ideais feministas ou quando Dona Neves (o seu duplo) instiga uma greve no restaurante da Dona Florinda.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Fechando essa an\u00e1lise dos personagens principais da s\u00e9rie, resta falar sobre\u00a0<strong>Chaves<\/strong>.\u00a0<strong>Como representante dos oprimidos, ele est\u00e1 num est\u00e1gio de exclus\u00e3o ainda mais extremo que o do subemprego.<\/strong>\u00a0\u00d3rf\u00e3o, de origem desconhecida, faminto e miser\u00e1vel, ele \u00e9 a s\u00edntese de uma sociedade doente. Chaves recebe as pancadas de Seu Madruga \u2013 que procura algu\u00e9m socialmente abaixo dele para descontar as suas frustra\u00e7\u00f5es \u2013 e as devolva para cima, conscientemente em Quico e inconscientemente em Seu Barriga. N\u00e3o tem a rebeldia indom\u00e1vel e a intelig\u00eancia ardilosa de Chiquinha, mas tamb\u00e9m \u00e9 um agente importante da instabilidade que aciona as hist\u00f3rias da vila.<strong>\u00a0O protagonista da s\u00e9rie ao mesmo tempo abala o esquema aleg\u00f3rico das representa\u00e7\u00f5es sociais como o completa, fazendo do seu barril-ref\u00fagio \u2013 gravado como um\u00a0<em>aleph\u00a0<\/em>no centro do cen\u00e1rio \u2013 a personifica\u00e7\u00e3o de nossas nervuras sociais mais complexas.<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nestes 50 anos de sucesso da s\u00e9rie, por tr\u00e1s do texto brilhante, do humor afiado e das atua\u00e7\u00f5es impec\u00e1veis, cintila\u00a0<strong>uma figura\u00e7\u00e3o altamente cr\u00edtica de nossos desacertos hist\u00f3ricos<\/strong>, do que temos de mais belo, engra\u00e7ado e terr\u00edvel. Eis a raz\u00e3o maior de estarmos diante de um indispens\u00e1vel cl\u00e1ssico latino-americano.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>___<\/strong><br \/>\n<strong>Marcelo Ferraz<\/strong>\u00a0\u00e9 professor de Teoria Liter\u00e1ria na Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG). Pesquisador do CNPq. Coordenador do projeto\u00a0<a href=\"https:\/\/mpac.ufes.br\/\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Memorial Po\u00e9tico dos Anos de Chumbo<\/strong><\/span><\/a>. \u00c9 autor dos livros\u00a0<em>Doente de Brasil<\/em>,\u00a0<em>Uma casa: o tempo<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Poesia e di\u00e1logos numa ilha chamada Brasil<\/em>.<\/p>\n<p><strong>___<\/strong><\/p>\n<p><strong>As opini\u00f5es expressas neste artigo s\u00e3o de responsabilidade do autor (a) e n\u00e3o reflete necessariamente a nossa pol\u00edtica editorial. O Fronteira Livre adota os princ\u00edpios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo cr\u00edtico e independ\u00eancia.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Marcelo Ferraz, no Blog Boitempo \u2013 Opini\u00e3o Superados momentaneamente os desacordos econ\u00f4micos entre os herdeiros de Roberto Bola\u00f1os (o \u201cChespirito\u201d) e a emissora mexicana Televisa, o seriado\u00a0Chaves\u00a0ressurgiu, com f\u00f4lego renovado, em nossas m\u00faltiplas telas. 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