{"id":14389,"date":"2024-01-11T08:02:30","date_gmt":"2024-01-11T11:02:30","guid":{"rendered":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/2024\/01\/11\/penitenciarias-uma-bomba-relogio-contra-nos-mesmos-entrevista-especial-com-gunther-zgubic\/"},"modified":"2024-01-11T08:02:30","modified_gmt":"2024-01-11T11:02:30","slug":"penitenciarias-uma-bomba-relogio-contra-nos-mesmos-entrevista-especial-com-gunther-zgubic","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/es\/penitenciarias-uma-bomba-relogio-contra-nos-mesmos-entrevista-especial-com-gunther-zgubic\/","title":{"rendered":"Entrevista: padre\u00a0G\u00fcnther Zgubic, coordenador da\u00a0Pastora Carcer\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Defensor dos\u00a0direitos humanos\u00a0nas penitenci\u00e1rias brasileiras e idealizador de projetos que tentam encontrar outras alternativas ao sistema carcer\u00e1rio vigente, padre\u00a0G\u00fcnther Zgubic\u00a0acompanha a realidade dos pres\u00eddios brasileiros h\u00e1 20 anos, e diz que a conviv\u00eancia nesses ambientes pode ser comparada a atos de tortura.<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"color: rgb(230, 126, 35);\"><strong><a style=\"color: rgb(230, 126, 35);\" title=\"Compartilhe esta not\u00edcia no WhatsApp\" href=\"https:\/\/chat.whatsapp.com\/BH53cpNbCjB0HXXwaQa3mD\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Receba not\u00edcias pelo WhatsApp<\/a><\/strong><\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: rgb(230, 126, 35);\"><strong><a style=\"color: rgb(230, 126, 35);\" title=\"Compartilhe esta not\u00edcia no Telegram\" href=\"https:\/\/t.me\/portalnfl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Receba not\u00edcias pelo Telegram<\/a><\/strong><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cA sa\u00fade em si se torna t\u00e3o abalada que a pessoa somatiza. A partir do trauma psicol\u00f3gico mental, os presos se traumatizam tamb\u00e9m corporalmente\u201d, relata.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Em conversa com a\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>, por telefone, o coordenador da\u00a0<strong>Pastora Carcer\u00e1ria\u00a0<\/strong>explicou por que o\u00a0n\u00famero de suic\u00eddios nas penitenci\u00e1rias brasileiras aumentou 40%\u00a0nos \u00faltimos anos. Segundo ele, diferente do que apontam as mat\u00e9rias dos jornais, a culpa n\u00e3o deve recair apenas sob as fac\u00e7\u00f5es criminosas que comandam grupos dentro das pris\u00f5es. O Estado, garante, \u201cresponde como arquitetura para esse c\u00edrculo vicioso\u201d. E dispara: \u201cOs suic\u00eddios que ocorrem nos pres\u00eddios atualmente s\u00e3o tamb\u00e9m consequ\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es desumanas que o Estado organiza nas pris\u00f5es, como a superlota\u00e7\u00e3o, por exemplo.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Na entrevista que segue,\u00a0<strong>G\u00fcnter Zgubic<\/strong>\u00a0chama a aten\u00e7\u00e3o para o descaso da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos presidi\u00e1rios e afirma que \u201co caos das penitenci\u00e1rias brasileiras demonstra que a maioria da sociedade n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de trabalhar e compreender a quest\u00e3o do outro, e o trata com brutalidade\u201d. Comparando pres\u00eddios a uma bomba-rel\u00f3gio que poder\u00e1 explodir a qualquer momento, ele faz uma alerta: \u201cSe n\u00e3o humanizarmos essas pessoas, estaremos construindo uma bomba-rel\u00f3gio contra n\u00f3s mesmos, destruindo primeiro os presos e seus funcion\u00e1rios nos pres\u00eddios\u00a0<strong>\u2013\u00a0<\/strong>psicologicamente e at\u00e9 fisicamente com a quest\u00e3o dos suic\u00eddios\u00a0<strong>\u2013<\/strong>, e libertando tr\u00eas vezes mais presos violentos que sa\u00edram das penitenci\u00e1rias\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Idealizador da\u00a0<strong>Campanha da Fraternidade de 2009<\/strong>, padre\u00a0<strong>G\u00fcnther Zgubic<\/strong>\u00a0\u00e9 austr\u00edaco e vive no Brasil desde os 19 anos.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor conhece a realidade das penitenci\u00e1rias brasileiras h\u00e1 anos. \u00c9 poss\u00edvel tra\u00e7ar um perfil desse ambiente? Que mudan\u00e7as e retrocessos fazem parte dessa hist\u00f3ria?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>G\u00fcnther Zgubic \u2013<\/strong>\u00a0O Brasil apresentou diversas realidades de penitenci\u00e1rias ao longo dos anos. Tivemos, por exemplo, a\u00a0<strong>Grande Penitenci\u00e1ria de S\u00e3o Paulo<\/strong>, que foi constru\u00edda ap\u00f3s a\u00a0<strong>Primeira Guerra Mundial<\/strong>, e era considerada uma das mais avan\u00e7adas da\u00a0<strong>Am\u00e9rica Latina<\/strong>, ou seja, uma refer\u00eancia. M\u00e9dicos que trabalharam l\u00e1 antes da Ditadura Militar contam que ela tinha um sistema de atendimento mantido pelas universidades, ou seja, grandes m\u00e9dicos do Estado e pesquisadores eram respons\u00e1veis pela medicina, psicologia e psiquiatria. Nessa \u00e9poca, os presos trabalhavam e participavam de v\u00e1rias oficinas. No entanto, ao mesmo tempo existiam outros pres\u00eddios de baix\u00edssimo n\u00edvel no pa\u00eds. Posso dizer que o \u201cmelhor\u201d modelo de penitenci\u00e1ria n\u00e3o existe mais. Pres\u00eddio \u00e9 sempre, em todo o mundo, uma cat\u00e1strofe. Ao relatar o cotidiano na pris\u00e3o, os detentos falaram o seguinte para o relator especial de tortura das\u00a0<strong>Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU)<\/strong>: \u201cQuerem que a gente se humanize, mas nos tratam como monstros, e aqui nos tornamos monstros\u201d. Isso demonstra que o pres\u00eddio \u00e9 um absurdo, porque representa uma exclus\u00e3o social brutal.<\/span> <span style=\"color: #000000;\">Podemos dizer que, nos \u00faltimos 20 anos, triplicou o n\u00famero de presos no Brasil, e, ao mesmo tempo, diminuiu em tr\u00eas vezes o n\u00famero dos funcion\u00e1rios. Isto significa que\u00a0 no estado de S\u00e3o Paulo haja nove vezes mais presos por funcion\u00e1rio do que h\u00e1 20 anos. A sociedade nunca foi esclarecida sobre essa problem\u00e1tica e tampouco debate a quest\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Bomba-rel\u00f3gio<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Um secret\u00e1rio do Amazonas foi ao Par\u00e1 e me disse: \u201cPadre, a sociedade n\u00e3o aceitaria que se investisse mais em pres\u00eddios do que na \u00e1rea da sa\u00fade\u201d. Ent\u00e3o, teremos de decidir: ou constru\u00edmos pres\u00eddios como campos de concentra\u00e7\u00e3o, ou vamos humanizar os presos. Se n\u00e3o humanizarmos essas pessoas, quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias? Estaremos construindo uma bomba-rel\u00f3gio contra n\u00f3s mesmos, destruindo primeiro os presos e seus funcion\u00e1rios nos pres\u00eddios \u2013<strong>\u2013<\/strong>\u00a0psicologicamente e at\u00e9 fisicamente com a quest\u00e3o dos suic\u00eddios\u00a0<strong>\u2013<\/strong>, e libertando tr\u00eas vezes mais presos violentos que sa\u00edram das penitenci\u00e1rias. A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o aguentaria a bomba que criou para os outros. Se muitos de n\u00f3s f\u00f4ssemos presos, tamb\u00e9m nos suicidar\u00edamos. Em todo caso, \u00e9 admir\u00e1vel que n\u00e3o sejam mortos\u00a0mais presos e funcion\u00e1rios nos pres\u00eddios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">O caos das penitenci\u00e1rias brasileiras demonstra que a maioria da sociedade n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de trabalhar e compreender a quest\u00e3o do outro e o trata com brutalidade. Com isso, estamos longe da nossa f\u00e9 crist\u00e3, da \u00e9tica de\u00a0<strong>Jesus Cristo<\/strong>. Ele veio para abolir os pres\u00eddios. Enquanto isso, onde n\u00f3s estamos perante os familiares dos presos? Onde estamos como Igreja?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor percebe o \u201cboom\u201d de suic\u00eddios e supostas mortes naturais nas pris\u00f5es brasileiras, que cresceram 40% nos \u00faltimos tr\u00eas anos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>G\u00fcnther Zgubic \u2013<\/strong>\u00a0Ningu\u00e9m sabe exatamente o que acontece, porque cada morte precisaria ser pesquisada. O que sabemos s\u00e3o indica\u00e7\u00f5es do sistema, ou seja, algu\u00e9m escreve na pris\u00e3o a palavra suic\u00eddio, mas muitas dessas\u00a0mortes s\u00e3o for\u00e7adas ou planejadas por outros presos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Nos pres\u00eddios de castigos, onde o isolamento e a solid\u00e3o predominam, e quase tudo \u00e9 proibido, as pessoas ficam desestruturadas ap\u00f3s seis meses. Viver nesse ambiente \u00e9 como uma tortura; a sa\u00fade fica t\u00e3o abalada que a pessoa somatiza. A partir do trauma psicol\u00f3gico mental, os presos se traumatizam tamb\u00e9m corporalmente.\u00a0Uma rea\u00e7\u00e3o negativa respondida por outra rea\u00e7\u00e3o negativa s\u00f3 multiplica os problemas, que se agravam. Os mais fracos nessa rela\u00e7\u00e3o s\u00e3o os presos, pois o Estado, com todo o aparato militar, colabora com essa opress\u00e3o.\u00a0N\u00e3o quero dizer que os presos s\u00e3o \u201csantos\u201d, mas eles s\u00e3o a express\u00e3o, o reflexo da nossa economia, da nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Os pobres que n\u00e3o tinham outra experi\u00eancia pensam apenas em atuar no narcotr\u00e1fico, roubar como outros fazem. O que estamos fazendo para impedir o progresso dessa economia e da comercializa\u00e7\u00e3o de tudo que \u00e9 humano para desvalorizar o outro?<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Suic\u00eddio apoiado pelo Estado<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Os suic\u00eddios que ocorrem nos pres\u00eddios\u00a0atualmente n\u00e3o s\u00e3o apenas organizados pelas fac\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m consequ\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es desumanas que o Estado organiza nas pris\u00f5es, como a superlota\u00e7\u00e3o, por exemplo. Se o pres\u00eddio \u00e9 organizado por uma fac\u00e7\u00e3o, e o preso n\u00e3o \u00e9 bem visto pela coordena\u00e7\u00e3o dessa fac\u00e7\u00e3o, todos os outros presidi\u00e1rios ficam contra ele. Nesse caso, alguns optam por se suicidarem do que serem mortos brutalmente pelos inimigos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Muitos dos suic\u00eddios n\u00e3o s\u00e3o forjados apenas pelas gangues, mas tamb\u00e9m pelo Estado, que cria situa\u00e7\u00f5es de castigo que fazem com que as pessoas enlouque\u00e7am e se suicidem. Al\u00e9m disso, essas mortes tamb\u00e9m s\u00e3o forjadas por funcion\u00e1rios. Em Pernambuco, por exemplo, faltam funcion\u00e1rios na pris\u00e3o. Os que restam entregam o comando e os servi\u00e7os mais sujos aos prisioneiros. Existem, assim, os chamados chaveiros, que s\u00e3o ilegalmente um grupo de presos que mandam nos outros presidi\u00e1rios em nome dos funcion\u00e1rios, da diretoria da penitenci\u00e1ria e da pr\u00f3pria secretaria do Estado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Diretores de pres\u00eddios que trabalham de maneira correta n\u00e3o podem tratar essa quest\u00e3o perante os outros diretores, porque eles podem ser mortos. Por isso, precisamos da sociedade civil dentro dos pres\u00eddios para ajudar os funcion\u00e1rios de boa vontade e fiscalizar as brutalidades.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como compreender o poder das fac\u00e7\u00f5es criminosas mesmo dentro das pris\u00f5es?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>G\u00fcnther Zgubic \u2013<\/strong>\u00a0Todo ser humano precisa estar inserido em uma comunidade, e isso acontece tamb\u00e9m com os presos. Com a introdu\u00e7\u00e3o da lei do crime hediondo, come\u00e7ou a superlota\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios, j\u00e1 que muitos presos passaram a ficar mais tempo em regime fechado. Em 1992, ocorreu o massacre do\u00a0<strong>Carandiru<\/strong>. Tudo isso fez com que a situa\u00e7\u00e3o de caos dos pres\u00eddios aumentasse. A partir desse momento, sem apoio e percebendo a falta do cumprimento dos direitos b\u00e1sicos, os presos passaram a se organizar entre si, reivindicando os direitos humanos. Agora, considerando que essas pessoas vivem com brutalidade, \u00e9 \u00f3bvio que elas v\u00e3o se organizar como criminosos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Se uma fac\u00e7\u00e3o conseguiu estabelecer o poder dentro do pres\u00eddio, os outros presos aderem ao grupo porque precisam de uma prote\u00e7\u00e3o. Se eles optam por n\u00e3o participar da fac\u00e7\u00e3o, s\u00e3o marginalizados e facilmente perseguidos. Quando apenas 5% dos presos est\u00e3o fortemente organizados, eles s\u00e3o capazes de se impor contra o restante. Os que sobram acabam se envolvendo com as fac\u00e7\u00f5es, porque precisam de prote\u00e7\u00e3o, pois quem participa dessas gangues ganha benef\u00edcios. Quem possibilita que os familiares visitem os presos, no estado de S\u00e3o Paulo, quando um \u00f4nibus leva oito horas de viagem para chegar at\u00e9 a penitenci\u00e1ria?\u00a0 Quem paga o lanche, as passagens do \u00f4nibus? O Estado n\u00e3o paga nada; tudo \u00e9 organizado pelos presidi\u00e1rios que est\u00e3o envolvidos com o crime. O dinheiro para bancar esses custos vem do narcotr\u00e1fico.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Invers\u00e3o<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Esse sistema din\u00e2mico que existe entre os presos mostra tamb\u00e9m vantagens para os funcion\u00e1rios dos pres\u00eddios. Numa situa\u00e7\u00e3o em que existem 1500 presos numa penitenci\u00e1ria, e 30 funcion\u00e1rios de seguran\u00e7a, quem protege quem? Os detentos podem tomar os funcion\u00e1rios como ref\u00e9ns a qualquer momento, quando quiserem. Claro que numa situa\u00e7\u00e3o dessas seria chamada a\u00a0<strong>Tropa de Choque<\/strong>, mas, at\u00e9 ela chegar, os funcion\u00e1rios servem de escudo entre presos e policiais. Ent\u00e3o, quem cuida dos funcion\u00e1rios s\u00e3o os presos, o que acarreta a din\u00e2mica da corrup\u00e7\u00e3o. Diretores e funcion\u00e1rios de pres\u00eddios se deixam envolver, j\u00e1 que o Estado e a sociedade n\u00e3o mostram interesse. Assim, os funcion\u00e1rios se tornam ref\u00e9ns dos presos e, igualmente n\u00f3s nos tornamos ref\u00e9ns do nosso pr\u00f3prio \u00f3dio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como o senhor percebe a responsabilidade de seguran\u00e7a p\u00fablica dentro dos pres\u00eddios brasileiros? Como ocorre a vigil\u00e2ncia nessas condi\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>G\u00fcnther Zgubic \u2013<\/strong>\u00a0Se um Estado diminui drasticamente o n\u00famero de funcion\u00e1rios e aumenta o n\u00famero de detentos, a seguran\u00e7a de vida de todos os presos diminuiu no m\u00ednimo de tr\u00eas a nove vezes. Onde est\u00e3o os m\u00e9dicos para acompanhar os presos? Pelas orienta\u00e7\u00f5es da\u00a0<strong>ONU<\/strong>\u00a0e de acordo com as normas internacionais de medicina, os m\u00e9dicos deveriam visitar diariamente os presidi\u00e1rios. Isso nunca ocorre no Brasil. Ent\u00e3o, percebe-se que uma bola de neve come\u00e7a a crescer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 brutalidade. Al\u00e9m disso, a mentalidade de descaso com os presidi\u00e1rios e o apoio a medidas de viol\u00eancia contra presos geram rebeli\u00f5es como a que ocorreu em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 dois anos. Por dois dias, seis milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o sa\u00edram de casa, o que fez toda a economia da cidade parar. Se essa situa\u00e7\u00e3o permanecer assim, n\u00f3s vamos colher o que estamos semeando.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Em que sentido a viol\u00eancia urbana \u00e9 reflexo das impunidades e crueldades ocorridas nas penitenci\u00e1rias brasileiras?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>G\u00fcnther Zgubic \u2013<\/strong>\u00a0A brutalidade dentro das penitenci\u00e1rias \u00e9 um reflexo da viol\u00eancia que acontece na sociedade. Al\u00e9m disso, \u00e9 consequ\u00eancia da falta de criatividade e de amor para tratar pessoas que se tornaram, pelas circunst\u00e2ncias de vida, mais violentas, agressivas. No Jap\u00e3o, por exemplo, quase n\u00e3o existem presos, pois h\u00e1 outras formas de trabalhar os conflitos sociais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">A primeira\u00a0<strong>Campanha da Fraternidade<\/strong>\u00a0sobre Seguran\u00e7a P\u00fablica (2009) e paralelamente a primeira\u00a0<strong>Confer\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/strong>\u00a0\u2013 solicitadas pela Pastoral Carcer\u00e1ria \u2013 nos motivam a participar de confer\u00eancias municipais e refletir sobre as pol\u00edticas p\u00fablicas necess\u00e1rias para combater a viol\u00eancia atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como resolver a viol\u00eancia nos pres\u00eddios? \u00c9 poss\u00edvel pensar em substituir as penitenci\u00e1rias por outra institui\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>G\u00fcnther Zgubic \u2013<\/strong>\u00a0Deus sabe o que \u00e9 poss\u00edvel, mas\u00a0<strong>Jesus Cristo<\/strong>\u00a0\u00e9 uma refer\u00eancia para n\u00f3s ao que se refere ao compromisso. A experi\u00eancia de quem trabalha nas pris\u00f5es \u00e9 a mesma; todos dizem que, seguindo a estrutura atual, nenhuma pessoa sair\u00e1 recuperada. Os detentos v\u00e3o sair tr\u00eas vezes mais revoltados, porque a sociedade os ignora. Assim, estamos contribuindo para que haja um avan\u00e7o da viol\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Em\u00a0<strong>Buenos Aires<\/strong>, uma mulher, m\u00e3e de quatro crian\u00e7as, foi presa e conseguiu que o juiz decidisse pela pris\u00e3o domiciliar, porque ela tem como primeiro compromisso de vida cuidar de seus filhos, e, na sua aus\u00eancia, a vida das crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 mais digna. Por que no Brasil nunca foi decidido assim? Com penas alternativas seria poss\u00edvel diminuir o n\u00famero de presos, e, pouco a pouco, abolir os pres\u00eddios. Na\u00a0<strong>Holanda<\/strong>, onde a legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 mais flex\u00edvel, 80% de todas as pessoas que seriam processadas n\u00e3o s\u00e3o mais. L\u00e1, a justi\u00e7a d\u00e1 uma chance para a v\u00edtima e o ofensor chegarem a um acordo. Se o criminoso comparece livremente, ele n\u00e3o ser\u00e1 perseguido pela pol\u00edcia. No estado de<strong>\u00a0S\u00e3o Paulo<\/strong>, por exemplo, ilegalmente, o Tribunal for\u00e7ou presos que teriam o direito de estar em regime semiaberto, a permanecerem em regime fechado. Ent\u00e3o, se torna normal o nosso \u00f3dio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pris\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">O dinheiro das quatro penitenci\u00e1rias federais que foram criadas para os presos mais perigosos do Brasil seria suficiente para implantar centrais locais para o acompanhamento da execu\u00e7\u00e3o de penas alternativas. Se o juiz souber que pode confiar em penas alternativas, ter\u00edamos mais aplica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Em\u00a0<strong>Sergipe<\/strong>, h\u00e1 alguns anos, todas as cadeias foram desativadas, e de repente todas foram novamente preenchidas. Ent\u00e3o, prender mais ou menos pessoas \u00e9 apenas uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Assim, ao inv\u00e9s de investir em mais pres\u00eddios, precisamos pensar o que poder\u00edamos fazer com o mesmo dinheiro de forma preventiva e recuperativa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Menos pres\u00eddios aumentam nossa seguran\u00e7a de vida, desde que se fa\u00e7a algo direito. Por que n\u00e3o existe policia comunit\u00e1ria? As pr\u00f3prias par\u00f3quias precisariam criar n\u00facleos de bairro de seguran\u00e7a p\u00fablica. Cada comunidade religiosa deveria criar um n\u00facleo de observa\u00e7\u00e3o e, depois disso, se juntar com outras igrejas e integrantes do bairro, fazendo assim uma an\u00e1lise da realidade local, projetando um trabalho conjunto. Se fizermos isso, poderemos fazer uma an\u00e1lise do que significa pres\u00eddio e propor a amplia\u00e7\u00e3o de penas alternativas. \u00c9 preciso, assim, introduzir massivamente a justi\u00e7a restaurativa no Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como se d\u00e1 a aplica\u00e7\u00e3o dos direitos humanos nas penitenci\u00e1rias brasileiras?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>G\u00fcnther Zgubic \u2013<\/strong>\u00a0No ano de 1997, conseguimos uma s\u00e9rie de documentos sobre atos de tortura que aconteciam nos pres\u00eddios de S\u00e3o Paulo. Com essas informa\u00e7\u00f5es, fui \u00e0 Europa apresentar os relat\u00f3rios ao governo da \u00c1ustria e fazer com que a documenta\u00e7\u00e3o chegasse ao alto comissariado da\u00a0<strong>ONU<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Conseguimos criar um impacto em rela\u00e7\u00e3o ao tema e um representante da\u00a0<strong>ONU<\/strong>\u00a0veio ao Brasil. As autoridades brasileiras se comprometeram em n\u00e3o negar o massacre prisional que \u00e9 de responsabilidade do Estado, e decidiram criar uma seguran\u00e7a p\u00fablica para os presos, como direito humano. A den\u00fancia de tortura que fizemos teve uma repercuss\u00e3o mundial, atrav\u00e9s da Anistia Internacional, o que fez com que diminu\u00edsse o sistema de tortura nas penitenci\u00e1rias. Al\u00e9m disso, o governo brit\u00e2nico e a\u00a0<strong>Uni\u00e3o Europ\u00e9ia<\/strong>financiaram cursos de administra\u00e7\u00e3o de pres\u00eddios para funcion\u00e1rios de penitenci\u00e1rias brasileiras. O treino tinha como objetivo ensinar a lidar com respeito e a executar os direitos humanos nas penitenci\u00e1rias, considerando as indica\u00e7\u00f5es da\u00a0<strong>ONU<\/strong>. Foram treinadas quatro equipes de pres\u00eddios diferentes do estado de S\u00e3o Paulo. O resultado do treino foi bastante animador, porque um pres\u00eddio passou a controlar o outro, envolvidos num novo modelo de administra\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, o estado de<strong>\u00a0S\u00e3o Paulo<\/strong>\u00a0criou uma secretaria pr\u00f3pria para melhoramentos de administra\u00e7\u00e3o de penitenci\u00e1rias. S\u00f3 que com a mega rebeli\u00e3o que ocorreu h\u00e1 alguns anos, oresolveram acabar com esta experi\u00eancia inovadora.<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Amplia\u00e7\u00e3o dos direitos humanos<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">De qualquer modo, penso que teriam possibilidades mais fortes de trabalhar a quest\u00e3o dos\u00a0direitos humanos\u00a0nos pres\u00eddios. Mas essa quest\u00e3o deve incluir tamb\u00e9m os funcion\u00e1rios. Eles precisam ser preparados. Mais do que isso: precisam sentir apoio p\u00fablico e ter direitos trabalhistas. Na maioria dos estados brasileiros, os funcion\u00e1rios penitenci\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam mais direito a plano de carreira; eles precisavam ter os mesmos direitos que os policiais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Quando converso com policiais que s\u00e3o respons\u00e1veis pela administra\u00e7\u00e3o da cadeia p\u00fablica, eles contam que dentro das penitenci\u00e1rias o estresse psicol\u00f3gico \u00e9 muito maior. A superintend\u00eancia da secretaria do estado de\u00a0<strong>Minas Gerais<\/strong>\u00a0me disse que um m\u00e9dico de Belo Horizonte, por exemplo, recebe R$ 2.500,00 e no sistema penitenci\u00e1rio se paga a ele\u00a0somente R$ 1.200,00. Com isso, percebemos que tudo \u00e9 feito para acabar com os direitos humanos m\u00ednimos garantidos pela Constitui\u00e7\u00e3o brasileira. Isso demonstra que os direitos humanos s\u00e3o uma quest\u00e3o para todos n\u00f3s, porque temos o direito de que os presos retornem \u00e0 sociedade menos perigosos do que quando entraram na penitenci\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">O pres\u00eddio \u00e9 somente o ponto final de\u00a0um sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica totalmente falido. Se queremos direitos humanos para presos e funcion\u00e1rios, precisamos conversar para saber como melhorar.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Penitenci\u00e1rias. Uma bomba-rel\u00f3gio contra n\u00f3s mesmos. 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