{"id":12101,"date":"2024-03-27T12:49:19","date_gmt":"2024-03-27T15:49:19","guid":{"rendered":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/sem-categoria\/entrevista-luiz-henrique-mazza"},"modified":"2024-03-27T12:49:19","modified_gmt":"2024-03-27T15:49:19","slug":"entrevista-luiz-henrique-mazza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fronteiralivre.com.br\/es\/entrevista-luiz-henrique-mazza\/","title":{"rendered":"Entrevista: Luiz Henrique Mazza"},"content":{"rendered":"<p>Por muito tempo, os rodeios t\u00eam recebido severas cr\u00edticas dos protetores dos animais, que alegam que o evento envolve a tortura dos animais, por\u00e9m, os participantes do rodeio, de forma praticamente un\u00e2nime, defendem com unhas e dentes as provas que usam animais.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma exce\u00e7\u00e3o: Luiz Henrique Mazza conviveu neste meio por muito tempo, e agora ele resolveu lutar pelo fim da explora\u00e7\u00e3o animal em nome do entretenimento.<\/p>\n<p>Abaixo voc\u00ea confere a entrevista que ele nos concedeu, na qual Mazza conta detalhes das torturas que ocorrem em rodeios.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201c[\u2026] o animal teve ligamentos rompidos, fraturas no f\u00eamur e precisou ser sacrificado.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Por que voc\u00ea resolveu desistir dos rodeios?<\/strong><\/p>\n<p>Eu tinha um grande impasse com meu pai. Sou filho de pecuarista, cresci e morei na zona rural at\u00e9\u00a0 meus 22 anos de idade. A tradi\u00e7\u00e3o da minha fam\u00edlia sempre foi lidar com gado, seja de corte ou leite. Tanto que morei no Mato Grosso por 2 anos, onde meu pai engordava boi, e logo mudamos pra Minas Gerais, onde meu pai tamb\u00e9m mexia com gado de corte. Mesmo meu pai, homem que cresceu na lida de gado, odiava rodeios, achava que j\u00e1 explor\u00e1vamos demasiadamente os animais para o fim da alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu interesse por rodeios veio exatamente na adolesc\u00eancia. Por volta dos 14 anos eu montava nos bezerros da fazenda (sempre desobedecendo meu pai), logo passei a frequentar festas pequenas e montar nas competi\u00e7\u00f5es mirim. Sempre via maus tratos nestes eventos pequenos. Com o passar do tempo isso passou a me incomodar. Meu pai cada vez mais desgostoso com a situa\u00e7\u00e3o e minha mudan\u00e7a pra SP capital me afastaram do mundo dos rodeios. Ao distanciar-me deste mundo, pude ver mais amplamente o qu\u00e3o b\u00e1rbaro era. Logo meu pai faleceu e as responsabilidades ca\u00edram sobre meus ombros, o que finalizou a minha participa\u00e7\u00e3o no meio, at\u00e9 mesmo como locutor. Fui apresentado \u00e0s pol\u00edticas de esquerda, e passei a ver que n\u00e3o s\u00f3 as quest\u00f5es dos animais s\u00e3o problem\u00e1ticas, mas como diversas outras, como machismo, homofobia, etc. Quem nunca ouviu a famosa musica que estourou na primeira d\u00e9cada dos anos 2000 \u201cCowboy viado\u201d? E reparem, \u00e9 um ambiente predominantemente masculino, e sempre com a desculpa de que \u201c\u00e9 um ambiente muito bruto para as mulheres\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pe\u00f5es alegam que os animais s\u00e3o \u201cbem tratados\u201d nos rodeios, recebendo \u201cregalias\u201d de todos tipos. Tendo convivido neste meio, essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira?<\/strong><\/p>\n<p>O que \u00e9 ser bem tratado? Ra\u00e7\u00e3o de qualidade? A alimenta\u00e7\u00e3o que estes animais recebem \u00e9 somente para melhor rendimento destes animais nas montarias. Touros e cavalos de rodeio possuem vida de atletas. Alimento balanceado (silagem, ra\u00e7\u00e3o e sais minerais), treinos de corrida e nata\u00e7\u00e3o, etc. Mas a finalidade n\u00e3o \u00e9 o bem-estar destes animais, e sim o desempenho destes nas arenas. Mas e o transporte? A vida nas estradas? A montaria dura segundos, mas o processo por traz dela dura dias. Durante a maioria das festas, estes animais ficam confinados em pequenos currais dos parques de exposi\u00e7\u00f5es das cidades deste pa\u00eds. \u00d3bvio que recebem comida e \u00e1gua, sen\u00e3o n\u00e3o rendem uma boa montaria \u00e0 noite.<\/p>\n<p><strong>Quais tipos de maus tratos voc\u00ea j\u00e1 presenciou em rodeios?<\/strong><\/p>\n<p>Lembro de um animal que n\u00e3o pulou devidamente na montaria e deitou durante os 8 segundos. Nervoso por perder pontos na montaria, o pe\u00e3o chutou o focinho do touro, uma \u00e1rea extremamente sens\u00edvel em bovinos. Lembro-me que esta cena me marcou muito, inclusive o propriet\u00e1rio do animal tamb\u00e9m ficou revoltado. De resto, tem animal que \u00e9 mais bravo e ao entrar no brete d\u00e1 trabalho, e este \u00e9 alvo de choques. Tem pe\u00e3o que aperta muito a corda americana [sed\u00e9m] para deixar o animal respirando menos. S\u00e3o tantas coisas\u2026<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cQue tombemos as receitas, as m\u00fasicas, a literatura e at\u00e9 o modo como o caipira picava o fumo e enrolava seu cigarro de palha\u2026 Mas o rodeio? N\u00e3o, obrigado.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Em 2011, um bezerro teve que ser sacrificado ap\u00f3s ficar tetrapl\u00e9gico na prova bulldoging, em Barretos. Este \u00e9 um caso isolado?<\/strong><\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o. Se procurarmos na internet, vemos in\u00fameras fotos de animais cortados por espora; inclusive h\u00e1 uma famosa de uma \u00e9gua que teve parte de seu intestino exposto durante uma prova. Lembro de uma vez, um touro de um boiadeiro da regi\u00e3o de Bragan\u00e7a Paulista, ao descer do caminh\u00e3o, por conta de seu peso enorme (touros de rodeio geralmente s\u00e3o animais muito pesados, uma m\u00e9dia de 700kg), ele escorregou com as patas traseiras, abrindo-as. O animal teve ligamentos rompidos, fraturas no f\u00eamur e precisou ser sacrificado. Este touro era t\u00e3o pesado (33 arrobas, quase 1 Ton de peso vivo), que precisou de um munk para levant\u00e1-lo em cima de um caminh\u00e3o e lev\u00e1-lo ao abatedouro.<\/p>\n<p><strong>Muitos ativistas s\u00e3o amea\u00e7ados ap\u00f3s denunciarem os maus tratos em rodeios. O que voc\u00ea acha dessa atitude tomada pelos pe\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 reflexo da ignor\u00e2ncia deles. Pe\u00f5es s\u00e3o de um meio extremamente conservador e reacion\u00e1rio. Meu pai nasceu em 1925, era filho de pecuarista e criador de porcos (porcos eram supervalorizados por causa da gordura, que era usada em praticamente tudo), ele cresceu no meio rural, fez in\u00fameras viagens boiadeiras, dessas tropeiras que acabaram com o advento dos caminh\u00f5es e industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil, mas mesmo assim meu pai tinha a consci\u00eancia de explorador. Ele dizia que ele achava errado ser o dono de um animal que nunca fez mal algum a algu\u00e9m, etc. Inclusive usava isso de argumento para justificar o fato dele ser a favor da pena de morte no Brasil: \u201cA gente mata animais inocentes, o que custa matar humanos criminosos?\u201d Penso que geraria intensos debates entre n\u00f3s, se ele estivesse vivo nos dias de hoje. Mas meu pai j\u00e1 era um progressista dentro da maneira que podia ser, dentro dos par\u00e2metros que lhe foram apresentados, mas ele buscou novos par\u00e2metros, j\u00e1 estas pessoas n\u00e3o. Elas simplesmente estagnaram e n\u00e3o abrem a sua vis\u00e3o de maneira sist\u00eamica, elas usam os mesmos antolhos que eles colocam em seus animais.<\/p>\n<p><strong>Um PL do deputado Capit\u00e3o Augusto \u2013 PR defende que o rodeio seja considerado \u201cpatrim\u00f4nio cultural imaterial do Brasil\u201d. Voc\u00ea concorda com o projeto de lei?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca. Eu que fui criado no meio rural, sou violeiro, estudei a fundo as ra\u00edzes da cultura caipira brasileira, acho esse projeto de lei UMA PIADA. Como disse, meu pai foi boiadeiro \u201cdos antigos\u201d. O Rodeio nasceu do circo de montarias, uma competi\u00e7\u00e3o entre os pe\u00f5es para ver quem lidava com os animais mais xucros. Eram geralmente montarias em potros e burros brabos, mas com a globaliza\u00e7\u00e3o e a importa\u00e7\u00e3o dos moldes do rodeio americano, quase nada resta dessa cultura. De todas as modalidades praticadas oficialmente no rodeio brasileiro, somente a montaria em CUTIANO \u00e9 nacional, o resto \u00e9 tudo importado, TUDO. Os trajes, os termos, os equipamentos, tudo importado dos EUA. Existem fragmentos culturais sim, claro, como comidas t\u00edpicas, a viola propriamente dita, literatura, etc. Mas o rodeio, n\u00e3o. Esses fragmentos imateriais n\u00e3o dependem do rodeio e sequer s\u00e3o promovidos por ele.<\/p>\n<p>Essa americaniza\u00e7\u00e3o do meio rural brasileiro n\u00e3o promove nada, ou algu\u00e9m j\u00e1 ouviu algum caipira falar: \u201cI\u2019m the best Bullrider in the fuck world\u201d? Agora, com o advento do sertanejo universit\u00e1rio e a massifica\u00e7\u00e3o do Rodeio P\u00f3s-novela America, s\u00f3 intensificou-se como cultura de massa, e n\u00e3o cultura popular. Que tombemos as receitas, as m\u00fasicas, a literatura e at\u00e9 o modo como o caipira picava o fumo e enrolava seu cigarro de palha (tem uma t\u00e9cnica s\u00e9ria pra isso), mas o rodeio? N\u00e3o, obrigado.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cVoc\u00eas ainda ter\u00e3o as m\u00fasicas, as comidas, as roupas, a cacha\u00e7a\u2026 S\u00f3 deixem os animais em paz.\u201d<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O rodeio movimenta bilh\u00f5es de reais todos os anos. Voc\u00ea acredita que um evento que possui um imperativo econ\u00f4mico t\u00e3o forte ser\u00e1 proibido?<\/strong><\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m movimenta bilh\u00f5es, \u00e9 extremamente prejudicial e vai de vento em popa (e ela est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria). Enquanto tivermos um poder legislativo ruralista, creio que essa realidade n\u00e3o mude, principalmente onde o lucro vira justificativa pra qualquer coisa. Exploramos seres humanos para obter lucro, mesmo que, psicologicamente falando, era pra ser mais f\u00e1cil sentir empatia, o que dir\u00e1 da explora\u00e7\u00e3o animal? (Fique claro que odeio especismo, mesmo que esta frase tenha soado como). O Capital \u00e9 o mal do mundo.<\/p>\n<p><strong>Se voc\u00ea pudesse dizer algo aos pe\u00f5es que participam das provas, o que voc\u00ea diria?<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00eas n\u00e3o precisam disso para defender a cultura de voc\u00eas. H\u00e1 in\u00fameros meios de promover manifesta\u00e7\u00f5es culturais, n\u00e3o somos contra as festas, s\u00f3 queremos que animais deixem de fazer parte delas. Voc\u00eas ainda ter\u00e3o as m\u00fasicas, as comidas, as roupas, a cacha\u00e7a (que \u00e9 uma coisa muito boa por sinal), s\u00f3 deixem os animais em paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A alimenta\u00e7\u00e3o que estes animais recebem \u00e9 somente para melhor rendimento destes animais nas montarias<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":10294,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_sub_headline":"","videourl":"","footnotes":""},"categories":[61],"tags":[3307],"class_list":["post-12101","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-entrevistas"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Entrevista: Luiz Henrique Mazza | Fronteira Livre<\/title>\n<meta name=\"robots\" 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