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“Não há nada mais sustentável do que o sol”

Entrevista: Mário Campos Filho, presidente Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig)

Por Redação
22/07/2020 - 07:45
em Entrevistas
Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

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Adepto da corrida e do pilates, de cara ele confessa, como bom mineiro que é, sua paixão por uma das iguarias mais tradicionais da nossa culinária: o pão de queijo. A paixão é tão grande que, na Quaresma, em vez de se privar de bebida alcoólica ou de chocolate, como muitos fazem, a penitência dele é não comer pão de queijo. Nascido em BH, 36 anos e formado em Economia, ele é reconhecido entre seus pares pelo jeito dinâmico, diplomático e também pelo vasto conhecimento que acumula, apesar da tenra idade.

Ativo e determinado, Mário Campos Filho, presidente Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), também é conhecido por deixar a sua marca por onde passa. E assim tem sido, por exemplo, na Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Logo depois de assumir a presidência do Conselho de Empresários para o Meio Ambiente da entidade, em junho de 2018, Mário tratou de mudar nada menos que o nome do próprio colegiado, que passou a se chamar Conselho de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

“Hoje, em Minas, praticamente 99% da colheita da cana é mecanizada e sem queima. Do ponto de vista ecológico, um dos reflexos mais animadores disso é a volta dos animais aos canaviais. Em algumas regiões, até onças têm sido registradas. A criação de corredores ecológicos – fazendo a conexão com áreas de matas nativas – e de reservas naturais está mudando para melhor a paisagem e a realidade ambiental de vários municípios”, ele frisa.

Qual é a importância do sol para o setor sucroenergético?

É essencial. Afinal, não existe agricultura sem sol, sem água e terra. E a cana, planta tipicamente tropical que chegou às Américas por volta de 1493, tem dupla versatilidade: é uma agricultura alimentar e também energética. No Brasil, somos o maior exportador e segundo maior produtor mundial de açúcar (cerca de 17% da produção global e 34% da exportação mundial) e o segundo maior produtor de etanol. Não há nada mais democrático e sustentável do que o sol. Ele brilha para todos, sem distinção de quem vai ajudar ou incomodar. E ainda é de graça.

Em relação a Minas, você já afirmou que somos “o estado energia do Brasil”. Diz isso em razão da diversidade de fontes de geração que temos?

Sim. Minas tem muito sol, muita água e também potencial para geração eólica, do vento. E o aproveitamento da energia solar vem crescendo de forma impressionante. Segundo o Atlas Solarimétrico da Cemig, a região Norte apresenta valores médios de potencial de geração comparáveis aos melhores do país, que se concentram no Nordeste. Minas é líder na quantidade de usinas solares, totalizando mais de 9 mil unidades geradoras, em casas, indústrias, prédios públicos e comércios. Além disso, somos a caixa d’água brasileira. Temos grandes hidrelétricas, produzimos mais energia do que consumimos e abastecemos vários outros estados.

Qual o papel que a biomassa da cana também tem nesse cenário?

De destaque, com certeza. Ela é uma fonte limpa, renovável e, diferentemente da energia solar e da eólica, não é intermitente. Ou seja: mesmo com a sazonalidade da cana (safra e entressafra), a bioeletricidade é considerada uma fonte ‘firme’, graças à sua maior previsibilidade e confiabilidade. E ao fato, ainda, de sua geração ocorrer próximo ao centro de carga (consumidor final). É também uma fonte sustentável, uma vez que aproveita resíduos da produção do açúcar e do etanol, evitando que sejam desperdiçados e descartados na natureza. Cada tonelada de cana moída na fabricação de açúcar e etanol gera, em média, 250 kg de bagaço e 200 kg de palha e pontas.

Qual a participação de Minas na produção de cana e na geração de bioletricidade?

Minas Gerais responde por 10% da produção de cana e por 13,5% de toda a bioeletricidade gerada no país. Anualmente, em nosso estado, produzimos o suficiente para abastecer 1,2 milhão de residências. Como a cana é produzida nos períodos mais secos do ano, em alguns meses chegamos a responder por 15% de toda a energia elétrica produzida aqui em Minas. O pico da safra ocorre em junho, julho e agosto. No Brasil, 80% da bioenergia gerada vem dos resíduos da cana, conhecida como bioeletricidade.

E do ponto de vista ambiental, quais as vantagens e o papel energético da cana?

Nossas usinas são autossuficientes na geração de energia e boa parte delas vende o excedente para o Sistema Interligado Nacional (SIN). Assim, em complementação à geração das hidrelétricas, a bioeletricidade da cana assegura a economia de água nos reservatórios – nos meses mais críticos e secos. Evita, ainda, a emissão de gases de efeito estufa, ao substituir a queima de combustíveis fósseis, como o diesel e o carvão mineral, com fins de geração de energia. Ou seja: a cana é a grande estrela do nosso negócio e também a principal fonte renovável da nossa matriz energética.

Sobre o etanol, qual é o panorama do seu consumo em Minas?

O aumento do consumo em 2018, em relação a 2017, foi de 70%. Batemos o recorde de consumo, totalizando 2,48 bilhões de litros e uma economia para o consumidor mineiro de cerca de R$ 650 milhões, se comparado ao que ele gastaria se optasse pela gasolina. Hoje está claro: abastecer o carro com etanol se tornou uma fonte de economia para o consumidor, sobretudo diante dos elevados preços da gasolina.

Quais as perspectivas de crescimento do mercado de etanol?

Muito promissoras. Minas é o segundo maior consumidor no Brasil e tem a segunda maior frota entre os estados brasileiros, atrás apenas de São Paulo. A meta, para este ano, é produzirmos 3,1 bilhão de litros. Queremos voltar à segunda posição – hoje ocupada por Goiás – tanto na produção de cana quanto na de etanol. Atualmente, estamos presentes com a cana em 120 dos 853 municípios mineiros, temos usinas em 26 cidades e geramos cerca de 180 mil empregos diretos e indiretos no estado.

O setor tem defendido o maior entendimento, sobretudo entre os consumidores, do conceito chamado de ciclo de vida do etanol? Qual é o objetivo?

O que procuramos enfatizar é que etanol de cana emite cerca de 90% menos CO2, se comparado à gasolina, durante todo o seu ciclo de vida, ou seja, do canavial ao escapamento dos automóveis. Esse diferencial de ecoeficiência também conta pontos importantíssimos a favor do etanol quando se considera, por exemplo, o uso de carros elétricos e se observa a origem da energia que abastece esses modelos. Se ela for gerada de fontes fósseis, continuará liberando poluentes na atmosfera.

Vislumbra alguma saída ou alternativa? A combinação do etanol de cana com a motorização da frota pode ser um caminho?

Acredito que sim. O etanol é uma opção superior à eletrificação da frota quando se considera outro conceito: o do poço à roda. Pesquisadores e representantes da indústria automobilística indicam que a alternativa mais viável é o carro híbrido flex. Isso porque, além de limpo, alia eficiência energética a ganho de desempenho e tende a se tornar referência de mobilidade sustentável. Em todo mundo, há vários déficits de infraestrutura que limitam e tornam menos competitivo o uso de veículos elétricos movidos exclusivamente a bateria.

Já há algum modelo híbrido flex disponível no mercado brasileiro?

A Toyota já anunciou o lançamento do primeiro híbrido flex do mundo, o Corolla, produzido em São Paulo. Desde 2018, eles vêm testando essa tecnologia no Prius, híbrido movido exclusivamente a gasolina. Hoje, os carros flex convencionais fazem, em média, 7 km por litro de etanol. Como o híbrido flex, segundo a montadora, será possível rodar cerca de 30 km por litro.

A Fiat também anunciou uma geração de motores mais eficientes, movidos a etanol…

Sim, o Turbo E4, que será produzido na fábrica de Betim a partir do ano que vem. O objetivo é elevar os motores a etanol a um novo patamar de aproveitamento energético. E reduzir, assim, o gap de consumo do etanol em relação à gasolina, que hoje é de 30%. Ou seja, teremos motores de alta eficiência, de menor consumo e, o melhor, de baixo impacto ambiental.

Nesse contexto da ecoeficiência do etanol, o fim da queima da cana é um divisor de águas para o setor?

Sem dúvida. A mecanização e o fim da queima trouxeram inúmeros ganhos. Um dos principais foi a qualificação da mão de obra, por meio de cursos de formação e aperfeiçoamento. Vários e antigos cortadores de cana são hoje operadores de máquinas e trabalham um ambiente muito mais seguro e confortável, em cabines com ar-condicionado, por exemplo. Obviamente, num primeiro momento isso impactou o número de empregos no setor. Mas, desde então, temos gerado empregos de melhor qualidade, o que resulta em mais renda e desenvolvimento para os municípios em que atuamos.

Isso contribui para que o etanol se torne um combustível ainda mais competitivo e amigável ao meio ambiente?

Contribui sim e nada mais justo. Afinal, o etanol é o principal ‘garoto propaganda’ do nosso setor e, portanto, sua produção tem de ser absolutamente sustentável e correta. A queima da cana é regulamentada por uma legislação federal e vários estados também têm seus compromissos nesse sentido. A queima somente é liberada onde não é possível a mecanização do processo, em razão da declividade do terreno, etc.

Qual o percentual de mecanização hoje em Minas?

Praticamente 99% da colheita é mecanizada e sem queima. Do ponto de vista ecológico, um dos reflexos mais animadores é a volta dos animais aos canaviais. Em algumas regiões, até onças têm sido registradas. A criação de corredores ecológicos – que fazem a conexão com áreas de matas nativas – e de reservas naturais está mudando para melhor a paisagem e a realidade ambiental de vários municípios. Como costumo dizer, esse é um dos muitos exemplos de como a economia pode ajudar a resolver as questões ambientais.

Por que você diz isso?

Porque confirma a importância de estarmos atentos ao tripé do desenvolvimento sustentável: o econômico, o ecológico e o social. Acredito que podemos encontrar soluções para os problemas ambientais através da economia e da busca pela maior eficiência e competitividade. No caso da cana, a dinâmica do processo de mecanização comprovou ser mais viável e rentável produzir em regiões planas e sem queima. E como resultado positivo das mudanças e do investimento em tecnologia e capacitação, vieram os ganhos ambientais e sociais.

Que ganhos sociais você destaca?

A redução do impacto ambiental nas regiões vizinhas aos canaviais onde, historicamente, as comunidades sofriam e reclamavam dos incômodos da queima da cana, como a geração de fumaça, fuligem etc. Felizmente, a realidade do setor hoje é outra. Nos últimos anos, temos testemunhado uma clara melhoria da imagem, com uma visão extremamente mais favorável por parte das pessoas. Temos pesquisas comprovando que esse ganho resulta, em parte, da maior interação que buscamos ter com a população dos municípios em que atuamos, por meio das redes sociais, por exemplo. O engajamento das pessoas tem sido crescente.

É otimista em relação ao futuro? Que horizontes vislumbra?

Não adianta impor nada à sociedade. Somos um setor com mais de 400 anos de história e acredito que toda atividade produtiva só sobrevive enquanto é capaz se manter competitiva e de se mostrar necessária para as pessoas. Então, o desafio é sermos cada vez mais eficientes, buscando ter equilíbrio em tudo. Temos de olhar para a frente e valorizar as pessoas: o passado só deve servir para não repetirmos os erros. Precisamos seguir avançando juntos, com o ambiental, o social e o econômico caminhando lado a lado. A cana, que é a estrela do nosso negócio, vem mostrando que isso é possível.

Quem é ele?

Economista com MBA em Finanças e Relações Governamentais, Mário Campos participa de todos os fóruns de discussão do setor, como do Fórum Nacional Sucroenergético (FNS) e também integra as Câmaras Setoriais do Açúcar, do Álcool e de Logística do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. É, ainda, membro do Conselho Temático da Agroindústria, da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em 2015, foi triplamente premiado como: vencedor do Prêmio Hugo Werneck (representando a Siamig na categoria Melhor Parceiro Sustentável); ganhador do troféu Líder do Ano, no Prêmio MasterCana Centro-Sul, e da medalha da Ordem do Mérito Legislativo, da Assembleia Legislativa de Minas (ALMG).

“Do ponto de vista ecológico, um dos reflexos mais animadores é a volta dos animais aos canaviais.”

Entenda melhor

A Siamig teve participação de destaque nos debates da Conferência do Clima (COP 21), em 2015, em Paris, para inclusão do etanol entre as proposições para a redução das emissões apresentadas pelo Brasil. O governo apresentou uma meta de diminuir 37% das emissões dos gases de efeito estufa até 2025, e de 43% até 2030.

O objetivo é ampliar o uso doméstico de fontes de energia não fóssil, aumentando a parcela de energia renovável para o fornecimento de energia elétrica para ao menos 23% até 2030 (eólica, solar, biomassa). Previu também a participação, até 2030, de 18% de bioenergia na matriz energética brasileira.

O emprego do etanol na matriz energética da propulsão (carros elétricos) é uma vantagem comparativa do Brasil, que conta com tecnologia e condições climáticas para a produção competitiva do etanol a partir da cana. Além de ter estrutura eficiente de distribuição do combustível.

O etanol é uma alternativa compatível com os objetivos de redução das emissões da frota brasileira, uma vez que a maior parte do CO2 emitido na atmosfera, durante o processo de combustão do motor, é capturada de volta pelas folhas da cana, através da fotossíntese.

O Programa Nacional de Biocombustíveis (Renovabio) entrará em vigor a partir de janeiro do ano que vem. Seu foco é a segurança nacional do abastecimento de combustíveis, como a previsão de aumento da produção de etanol para 2030 em torno de 47 bilhões de litros (o dobro da atual).

Por Revista Ecológico 119 / Páginas Verdes

Tags: entrevistas
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