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Home Entrevistas

Entrevista: Giowana Cambrone

Conheça Giowana Cambrone, a 1ª transexual a participar da coordenação da Rede Sustentabilidade

Por Redação
04/09/2019 - 22:00
em Entrevistas
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Giowana Cambrone é uma mulher encantadora e com uma incrível história a compartilhar.

Transexual, ativista dos movimentos LGBT, advogada, professora de Direito de Família e mestranda em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ,

Em entrevista ao blog, ela nos contou um pouco sobre sua experiência pessoal, a sociedade hetero-cis-normativa e esclareceu posições da Rede em relação a minorias sexuais.

Giowana também explicou o que de fato ocorreu no polêmico episódio da edição do programa de governo de Marina Silva nas eleições de 2014.

Queria começar com uma pergunta pessoal: como foi o momento que você se entendeu como trans? O que você pensou?

Eu me percebi diferente do padrão hetero-cis-normativo já desde criança. Eu me lembro que certa vez estava assistindo a um programa do Silvio Santos, o Show de Calouros, em que havia uma apresentação de transformistas. E num dado momento, ele perguntou para uma daquelas transformistas como ela se sentia. Ela deu uma resposta que hoje seria considerada ruim, mas que falou para a minha realidade. Ela disse que se sentia uma mulher presa num corpo de homem. E a partir daquele momento eu me entendi melhor. Passei a pensar: “eu não estou sozinha, há outras pessoas comigo”. Mas eu morava no interior de Minas e havia muito preconceito. Sentia-me não acolhida. Sentia-me culpada, anormal e até pecadora. Mas tudo isso já foi superado.

De lá pra cá, o que mudou?

Muita coisa mudou. Hoje eu me sinto realizada. Eu vivia uma vida que não era minha. Eu era uma pessoa infeliz. Vivi por 30 anos uma identidade que me aprisionava. As regras de gênero que nos são impostas são muito rígidas e impõem condutas de expressões de forma ditatorial. O processo de transição não se deu sem luta e dor – emocional e física. Foi preciso desconstruir uma identidade moldada pelo gênero que me atribuíram ao nascer, e construir outra que sou eu. Antes era como se eu vivesse uma personagem. Faltava Giowana na Giowana.

Você disse numa entrevista anterior que “vivemos num Estado com uma população imaginariamente heterossexual”. Você poderia explicar aos nossos leitores o que é esse Estado e como isso afeta a vida de pessoas LGBT?

Esse, na verdade, é um conceito de uma feminista chamada Ochy Curiel, que desenvolveu a ideia de nação heterossexual. Apropriando-me desse conceito, eu acabei percebendo que a heteronormatividade e a cisnormatividade são muito presentes na classe hegemônica que comanda o Estado. E isso repercute em políticas públicas, na legislação e no conjunto do Estado. Então, dificilmente a gente consegue aprovar uma legislação favorável à população LGBT. Até no que tange a coisas mais básicas, como por exemplo o casamento ou o reconhecimento de identidades trans. Suprimindo o acesso a direitos essenciais do cidadão.

O que você acha da polêmica sobre o Estatuto da Família?

O Estatuto da Família é uma lei natimorta. Hoje, a definição de família é muito mais plural e diversa. Muitas vezes, um instrumento normativo morre por causa de mudanças na dinâmica social e perde sua finalidade. Mas essa lei é proposta já sem finalidade social. Por isso é natimorta. Além disso, estão propondo um Estatuto que fere a interpretação do STF, que é o guardião da Constituição. Na verdade, é um discurso político que está em jogo. E o grande problema é que é um discurso excludente e de ódio. O Estatuto da Família proposto viola os princípios constitucionais de igualdade, de equidade e de liberdade. E daí, buscam aprovar uma lei que discrimina outras configurações familiares fora do que ditam como padrão… Isso muito me preocupa. O que define família é o laço de amor e afeto. E esses não se extinguem por uma lei. As famílias fora desse “padrão normativo” que pretendem impor vão continuar existindo, com ou sem lei.

Você foi apontada como a primeira transexual na coordenação da Rede. Como foi essa experiência? Você deixou a coordenação?

Eu participei da coordenação do elo estadual da Rede Rio. Foi um período muito bom. Eu tive de sair por questões pessoais. Estava envolvida com o mestrado e entrando no mercado de trabalho. Coisas que deixavam minha atenção aquém do que eu desejava. Mas continuo sendo ativista da Rede e me dedicando ao projeto.

Muitas pessoas falaram sobre a edição que ocorreu no programa da campanha de Marina em 2014. Hoje, como você vê o que ocorreu?

Eu participei da construção daquele programa. A gente fez as reuniões junto com os representantes dos grupos LGBT da coligação e eu fiz a redação final das propostas que iriam ser levadas para o programa. Como militante de Direitos Humanos há alguns anos, eu aprendi que a gente deve querer tudo agora. E foi o que propusemos. Todavia, sabíamos que haveria uma mediação. Ou seja, não seria tudo aquilo que nós estávamos requerendo que comporia o programa. Porque um programa significa compromissos pelos quais você vai lutar com todo o seu capital político para realizar. Nesse meio tempo, entre as proposições de construção do programa e as mediações que deveriam ser feitas, tudo mudou. Ocorreu aquela fatalidade com Eduardo Campos, as redefinições de campanha e a necessidade de Marina Silva assumir. Tudo isso acabou atropelando muito o processo. Naquela sexta-feira em que foi lançado [o conteúdo programático LGBT], as pessoas começaram a me ligar falando “o programa saiu, o programa saiu”. E quando eu fui ler, eu vi que as propostas haviam sido publicadas na íntegra. Até minhas vírgulas foram mantidas. Eu fiquei super feliz, óbvio, mas achei estranha a publicação na íntegra. Estava na cara que não havia passado pela mediação. Um dia depois foi publicada a versão final do documento com a mediação. Eu fiquei muito aborrecida naquele momento, nem tanto pelo programa, que não havia sido alterado substancialmente em seu conteúdo, mas pelo equívoco [no processo de edição].

Mesmo assim, há de se ser justo e relembrar que o programa apresentado ainda era o mais avançado dentre todos os candidatos, pois foram preservadas as propostas da adoção de crianças por casais homoafetivos e o apoio à Lei João Neri que prevê a requalificação civil de pessoas trans. No entanto, esse equívoco ocorrido na publicação infelizmente fragilizou a campanha e começamos a ser atacados e acusados de que essa mudança teria se dado pelos tuítes oportunistas do Malafaia.

O Malafaia nunca compôs nada com a Rede e é um oportunista de marca maior.Afirmar que o Malafaia tenha qualquer influência na Rede é desconhecer totalmente o movimento. Também não vejo na Marina qualquer restrição aos direitos civis LGBT. Acho que a Marina é uma pessoa muito aberta a essa questão de Direitos Humanos. Basta ler a versão final do programa para entender isso. Mas no calor da campanha, ganhou quem fez o marketing, não quem apresentou propostas e firmou compromissos por escrito.

Há espaço para as populações LGBT na Rede?

Claro! A Rede já nasce com o entendimento de sustentabilidade. Não há como se pensar a sustentabilidade sem se pensar na diversidade. A diversidade está em todos os aspectos. A diversidade cultural, a diversidade ecológica, a diversidade humana e, claro, a diversidade sexual. Esse é um compromisso da Rede.

É um partido que acolhe a diversidade humana. Que acolhe a pluralidade e a diversidade de vozes. A Rede não é um partido de uma só cor. Ela já nasce com atenção especial para a condição humana.

O elo Diversidade em Rede, de forma horizontal e num exercício de compartilhamento de saberes, tem discutido e trabalhado intensamente para a construção de uma agenda LGBT dentro do partido. Já aprovamos em nível estadual, pelos elos do Rio de Janeiro e São Paulo, com ratificação pelo Elo Nacional, duas Propostas de Resolução de Interesses dos Filiados (PRIF), norteando as defesas do partido em relação à diversidade sexual, bem como em defesa da laicidade do Estado. Além disso, temos acolhido os novos parlamentares e membros vindos de outras legendas apresentando nossos valores e agendas, conscientizando-os quanto a esse compromisso.

Para concluir: o que as pessoas poderiam fazer para colaborar com a melhoria da qualidade de vida da população trans?

É tanta coisa, mas ao mesmo tempo é tão simples. O que mais pesa é o desrespeito. É como se a sociedade quisesse invisibilizar as pessoas trans. Mas elas existem. São uma realidade que a maioria não quer enxergar. São corpos que transgridem o gênero. “Anormais” para os padrões e relegados à margem social.

O não reconhecimento das identidades trans é o principal problema. Dele originam os demais, como a dificuldade de acesso ao trabalho. O mercado de trabalho rejeita. Faltam oportunidades. Hoje, há uma estimativa de que 90% dessa população vive como profissional do sexo. Nunca, nenhuma população oprimida ou marginalizada no país, de mulheres, de negros ou outros, foi reduzida a praticamente uma só atividade econômica. E não estou aqui julgando quem faz isso por opção. A questão é que não pode ser a única opção.

Porque ou você trabalha, ou você não vive, você não se alimenta. Tem gente que acha que a pessoa trans vive de ar, ou de glitter, ou de brilho. Não, a pessoa trans tem que comer, tem que beber, tem que se vestir. Tem que fazer no mínimo duas refeições por dia. Tem que ter acesso à saúde e à educação. De vez em quando ir ao cinema.

No entanto, essas necessidades são negligenciadas. Enquanto o movimento LGBT está discutindo e reivindicando o direito civil, as pessoas trans tem que discutir o direito a suas necessidades mais básicas. Até mesmo as fisiológicas, como em qual banheiro podem entrar ou direitos sociais como trabalho, saúde e educação. Uma coisa impensável no século 21.

Tags: entrevistas
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