Livro: Pedro do Araguaia — Um bispo contra todas as cercas

Publicada em 2019, obra de Ana Helena Tavares resgata atuação do bispo no Araguaia e sua defesa dos direitos humanos

Dom Pedro ofereceu a sua solidariedade a grupos de religiosos e de trabalhadores e trabalhadoras contra as ditaduras militares no América Latina. Foto: Portal Vermelho

Dom Pedro ofereceu a sua solidariedade a grupos de religiosos e de trabalhadores e trabalhadoras contra as ditaduras militares no América Latina. Foto: Portal Vermelho

Rio de Janeiro (RJ) – Publicado originalmente em 2019, o livro Pedro do Araguaia — Um Bispo Contra Todas as Cercas, da jornalista Ana Helena Tavares, permanece como um dos registros mais importantes sobre a trajetória de Dom Pedro Casaldáliga, bispo catalão radicado no Brasil que transformou sua atuação religiosa em símbolo de enfrentamento à ditadura militar, ao latifúndio, à violência no campo e à opressão contra povos indígenas.

A obra revisita décadas de atuação de Casaldáliga no Araguaia, região marcada por conflitos agrários, violência e desigualdade social. Desde que chegou ao Brasil, em 1968, o religioso passou a denunciar violações de direitos humanos e se tornou uma das principais vozes ligadas à Teologia da Libertação e à defesa das populações mais vulneráveis do país.

Escrito a partir de entrevistas, pesquisas documentais e viagens de campo, o livro nasceu de um projeto de jornalismo literário idealizado por Ana Helena Tavares, jornalista carioca que se aproximou de Dom Pedro enquanto produzia uma série de entrevistas sobre personagens que resistiram à ditadura militar brasileira.

Memória, jornalismo e compromisso social

A autora relata que o encontro com Casaldáliga alterou profundamente sua visão sobre jornalismo e compromisso social. O contato aconteceu em 2012, quando Ana Helena viajou ao Araguaia para entrevistar o bispo emérito de São Félix do Araguaia para um projeto sobre memória da repressão no Brasil.

“Pedro é o tipo de pessoa que nasce de mil em mil anos”, afirmou Ana Helena ao explicar o impacto provocado pela convivência com o religioso.

Segundo ela, a proposta do livro sempre foi construir um retrato rigoroso, humano e documental de um personagem que, apesar da relevância histórica, ainda permanece pouco conhecido por grande parte da população brasileira.

A jornalista destaca que Dom Pedro se tornou uma referência internacional pela defesa dos direitos humanos, especialmente entre trabalhadores rurais, indígenas e comunidades marginalizadas. Na Espanha, sobretudo na Catalunha, o religioso possui amplo reconhecimento público, cenário diferente do observado no Brasil.

Ao longo do livro, Ana Helena reconstrói episódios que marcaram a trajetória do bispo durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira. Casaldáliga denunciou perseguições políticas, trabalho escravo, grilagem de terras e violência praticada contra comunidades indígenas e camponesas na região do Araguaia.

Mesmo após a redemocratização, continuou recebendo ameaças em razão de sua atuação política e pastoral.

O livro também recupera a participação de Dom Pedro na criação e fortalecimento de organizações como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), instituições que seguem atuando na defesa de direitos no campo e entre os povos originários.

Jornalismo literário e preservação da memória

A publicação se insere na tradição do jornalismo literário e da reconstrução histórica baseada em testemunhos. Ana Helena Tavares afirma que o projeto buscou unir investigação jornalística, literatura e memória política para preservar histórias que ajudam a compreender o Brasil contemporâneo.

Além da pesquisa documental, a autora percorreu cidades brasileiras em busca de relatos de pessoas que conviveram com Casaldáliga e testemunharam sua atuação social e religiosa.

“As causas que ele abraçou são profundamente brasileiras e continuam extremamente atuais”, destacou a jornalista.

Mesmo anos após o lançamento da obra e após a morte de Dom Pedro Casaldáliga, em 2020, o livro continua atual ao abordar temas que seguem presentes no cenário brasileiro: conflitos agrários, violência contra indígenas, concentração fundiária, desigualdade social e defesa dos direitos humanos.

A trajetória do bispo também permanece associada à ideia de resistência ética e espiritual diante de estruturas de poder político e econômico.

A frase que inspirou parte da construção simbólica da obra resume a visão de mundo de Casaldáliga:

“Quem fica um dia na floresta quer escrever uma enciclopédia. Quem fica cinco anos quer ficar em silêncio para contemplar.”

Serviço

Livro: Pedro do Araguaia — Um Bispo Contra Todas as Cercas
Autora: Ana Helena Tavares
Lançamento original: 2019
Tema: trajetória de Dom Pedro Casaldáliga e sua atuação social no Brasil
Onde encontrar? Já buscou na Livraria Kunda?

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