*Editorial Fronteira Livre
Comer cérebro de macaco, morcegos, baratas, ratos ou diferentes tipos de insetos não é, em muitas partes do mundo, sinal de miséria — é cultura, território, memória. São práticas alimentares construídas ao longo de gerações, atravessadas por clima, geografia, tradição e identidade. O que, para alguns, soa exótico, para outros é cotidiano. Não há vergonha nisso. Há história.
O problema começa quando esse olhar vira julgamento — e, pior, quando se ignora o essencial: a questão nunca foi o que se come, mas a qualidade do que se pode comer e, sobretudo, por que se está comendo aquilo. Quando a escolha desaparece, o prato deixa de ser cultura e passa a ser imposição ou extrema necessidade.
É nesse ponto que a fome precisa ser nomeada pelo que é: resultado de decisões políticas. Não se trata da ausência de alimentos, mas da ausência de acesso, de renda e de prioridade social. Quando alguém é empurrado a comer o que nunca fez parte da sua vida — não por cultura, mas por falta de alternativa —, o que está em jogo não é diversidade alimentar, é desigualdade.
É a expressão concreta de um modelo que concentra riqueza e naturaliza a privação. É violência social.
No governo de Jair Bolsonaro, o Brasil assistiu ao retorno de cenas que deveriam ser inadmissíveis em qualquer sociedade que se pretenda minimamente justa. Pessoas disputando ossos em açougues, famílias aguardando restos descartados por supermercados, gente revirando caminhões de lixo em bairros ricos em busca de comida. Não são exceções nem desvios pontuais. São expressão concreta de um projeto político. Durante esse período, o país voltou ao Mapa da Fome, com mais de 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Ao mesmo tempo, bancos ampliavam seus lucros em escala bilionária, o agronegócio batia recordes históricos e o número de bilionários crescia. Não há incoerência nesse cenário. Há lógica. Há direção.
O que se consolidou foi um modelo em que a necessidade humana deixa de ser prioridade. A riqueza continua sendo produzida em larga escala, mas sua distribuição é bloqueada por uma lógica que privilegia o capital financeiro e os grandes grupos econômicos. O alimento existe, mas o acesso a ele é negado. E isso não é resultado de omissão acidental — é escolha política. O projeto neoliberal, ao reduzir o papel do Estado e tratar direitos como custos, transforma a fome em consequência tolerável, naturalizando a desigualdade como parte do funcionamento da economia.
Jair Bolsonaro foi presidente do Brasil. Javier Milei é presidente da Argentina. Dois países diferentes, contextos distintos, mas um mesmo projeto em curso na América Latina. Onde a extrema direita governa, os resultados se repetem: aprofundamento da fome, ampliação da desigualdade e abandono das maiorias. O discurso pode variar — liberdade econômica, ajuste fiscal, combate ao Estado —, mas a prática é consistente: redução de políticas públicas, desmonte de mecanismos de proteção social e fortalecimento de um modelo que concentra renda e exclui quem depende do trabalho para viver. Nesse cenário, fome, caos social e desigualdade deixam de ser efeitos colaterais e passam a ser parte estruturante do projeto.
A Argentina sob Javier Milei já expõe esse caminho de forma acelerada. A carne bovina, elemento central da cultura alimentar do país, torna-se inacessível para uma parcela crescente da população. O consumo cai a níveis históricos. No lugar, entram alternativas mais baratas — frango, porco e, em situações que ganharam repercussão nacional, carne de burro e de lhama. Não se trata de transformação cultural espontânea. Trata-se de empobrecimento imposto. Quando a renda despenca e os preços sobem, o prato muda à força. Quando o Estado se retira, o mercado não corrige — ele seleciona quem pode comer.
No Brasil, esse mesmo modelo revela um paradoxo estrutural. O alimento produzido pela agricultura familiar — responsável por grande parte do que chega à mesa da população — é frequentemente invisibilizado ou até criminalizado, enquanto o agronegócio voltado à exportação recebe incentivos massivos, crédito facilitado e prioridade política. Soja e milho transgênicos avançam como commodities para o mercado externo, enquanto pequenos e médios agricultores, que garantem a alimentação interna, seguem com menos apoio, menos investimento e menor presença nas políticas públicas. O que se fortalece é a produção de riqueza para fora, não a garantia de comida para dentro.
O resultado é um sistema que produz em escala, gera lucro em volume recorde, mas falha no essencial: alimentar sua própria população.
É justamente nesse ponto que o debate público é capturado e distorcido. A extrema direita sustenta a ideia de que o mercado é capaz de resolver sozinho as desigualdades, que o crescimento econômico, por si só, alcançará os mais pobres e que políticas sociais geram dependência. Esse discurso não é neutro — ele cumpre a função de justificar a retirada do Estado e naturalizar a exclusão. A realidade concreta desmente essa narrativa. Sem políticas públicas, a riqueza não se distribui — ela se concentra. Sem proteção social, a fome não diminui — ela se amplia. E, sem intervenção estatal, o acesso à alimentação deixa de ser um direito garantido e passa a ser definido pela capacidade de pagamento, transformando um bem essencial em privilégio de poucos.
O Brasil já demonstrou, mais de uma vez, que esse cenário pode ser revertido. Ao sair do Mapa da Fome pela segunda vez, o país evidenciou que a superação da miséria não depende de promessas abstratas de mercado, mas de decisão política concreta: programas de transferência de renda, valorização real do salário mínimo e políticas estruturantes de segurança alimentar. A fome nunca foi inevitável. Ela é resultado direto das escolhas feitas por quem governa — e, portanto, também pode ser combatida por escolhas que coloquem a vida acima do lucro.
Por isso, a discussão sobre carne de burro, lhama ou qualquer outro alimento é, no fundo, uma distração conveniente. O que está em jogo não é o conteúdo do prato, mas a ausência de escolha sobre ele. Quando a alimentação deixa de ser decisão e passa a ser imposição, o problema deixa de ser cultural e passa a ser político. O escândalo não é o alimento. O escândalo é a condição que obriga milhões a aceitarem o que houver — ou a disputarem restos — em países que produzem riqueza em escala global.
E, ao mesmo tempo em que pregam austeridade para a população — com cortes, sacrifícios e retirada de direitos —, acumulam-se denúncias e questionamentos sobre favorecimentos e relações familiares no centro do poder. Na Argentina, Karina Milei não é apenas irmã do presidente: tornou-se uma das figuras mais influentes do governo, com poder decisório direto e presença estratégica nos bastidores, alvo de críticas recorrentes sobre sua atuação política e vínculos com interesses econômicos. No Brasil, Jair Bolsonaro utilizou o peso da Presidência e de sua base política para proteger seus filhos, envolvidos em investigações como o esquema das rachadinhas, além de uma série de episódios que evidenciam o uso das instituições públicas para blindagem pessoal e familiar. Não se trata de casos isolados, mas de um padrão de funcionamento.
O discurso é de ajuste fiscal e responsabilidade econômica. A prática é de manutenção de privilégios e proteção de quem está no topo.
A austeridade nunca atinge quem concentra riqueza — ela desce sempre na mesma direção.
E, no fim, a conta continua recaindo sobre quem está na base — e não fecha porque nunca foi pensada para fechar.
No fim, a pergunta não é sobre que carne se come.
É por que se come.
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*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.
















