São Paulo (SP) — Mais de 50% dos rios avaliados no Brasil podem estar perdendo água para aquíferos subterrâneos, em um processo silencioso que pressiona o abastecimento, os ecossistemas e a segurança hídrica do país. O alerta é de um estudo publicado em 2024 na revista Nature Communications, conduzido por pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais, como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e universidades dos Estados Unidos.
A pesquisa analisou dados de 17.972 poços localizados a até um quilômetro de rios, cruzando essas informações com os níveis da água superficial para compreender a relação entre rios e aquíferos — uma interação essencial para o funcionamento do sistema hídrico. O resultado indica uma mudança significativa: em 55% dos pontos avaliados, o nível da água subterrânea estava abaixo da superfície dos rios, criando condições para que a água superficial infiltre no subsolo.
Na prática, isso significa uma inversão no comportamento tradicional de muitos rios. Em vez de receberem água dos aquíferos, passam a atuar como áreas de recarga, perdendo parte de sua vazão para o subsolo. Esse tipo de sistema é conhecido como “rio perdedor”, em contraste com os rios que recebem água subterrânea.

Pressão sobre aquíferos altera dinâmica hídrica
O estudo aponta o uso intensivo de água subterrânea como principal fator dessa transformação. A extração contínua por meio de poços — especialmente em regiões agrícolas e urbanas — reduz o nível dos aquíferos. Quando esse nível cai abaixo da superfície dos rios, cria-se um gradiente que favorece a infiltração da água superficial.
Esse processo é mais comum em áreas com agricultura irrigada intensiva, alto consumo urbano e baixa capacidade de recarga natural. Ao analisar rios com presença de poços ao longo de sua extensão, os pesquisadores identificaram que 56,4% apresentam condições favoráveis à perda de água para o subsolo, indicando que o fenômeno é amplo e distribuído em diferentes regiões do país.

Impactos podem atingir abastecimento e ecossistemas
A redução da vazão dos rios pode gerar efeitos diretos no abastecimento urbano, aumentando a dependência de reservatórios e de fontes alternativas. Na agricultura, a diminuição da disponibilidade hídrica compromete sistemas de irrigação e a produtividade.
Os impactos também atingem os ecossistemas aquáticos, que dependem de níveis mínimos de água para manter o equilíbrio biológico. A alteração no fluxo pode afetar a qualidade da água, a sobrevivência de espécies e a dinâmica dos sedimentos.
Um dos principais desafios desse fenômeno é sua invisibilidade. Diferente de secas ou enchentes, a perda de água para o subsolo não apresenta sinais imediatos perceptíveis. O nível do rio pode aparentar estabilidade, mesmo com perda contínua ao longo do tempo, o que dificulta a identificação sem monitoramento técnico.
Diante desse cenário, o estudo reforça que a gestão da água no Brasil precisa considerar a integração entre águas superficiais e subterrâneas. A separação entre rios e aquíferos deixa de refletir a realidade do ciclo hidrológico, já que alterações em um sistema impactam diretamente o outro.
Com o crescimento populacional, a expansão agrícola e o aumento da demanda industrial, a pressão sobre os recursos hídricos tende a se intensificar. Sem mudanças na forma de gestão, o número de rios que passam a perder água para o subsolo pode aumentar, transformando um processo silencioso em um problema estrutural para o país.
(Com informações do Click Petróleo e Gás)















