Recentes incidentes de envenenamento envolvendo membros da mesma família revelam padrões alarmantes e a brutalidade desse tipo de crime. O veneno mais frequentemente utilizado é o chumbinho, embora pesticidas e medicamentos também possam ser transformados em armas letais.
Entre 23 de dezembro e o réveillon, dois casos separados por quase 4 mil quilômetros expuseram uma forma de violência silenciosa e cruel. No Rio Grande do Sul, um bolo contaminado com arsênio resultou na morte de três integrantes de uma família em Torres. As investigações da Polícia Civil indicam que a mulher presa pelo crime também foi responsável pela morte do sogro em setembro, utilizando o mesmo método. Em Piauí, quatro pessoas faleceram após ingerirem um baião de dois contaminado com inseticida. O autor do crime, que nutria ódio pela enteada, já tinha histórico de violência, incluindo um episódio anterior de envenenamento envolvendo a vizinha.
O psiquiatra forense Guido Palomba caracteriza tais criminosos como covardes: “Quem usa esse método tende a ser uma pessoa covarde, o oposto das violentas. É um método dissimulado, de quem não enfrenta. Normalmente, são pessoas próximas das vítimas.”
De acordo com a médica perita Caroline Daitx, além do chumbinho, venenos como gases tóxicos e cianeto estão entre os mais utilizados. No caso de Torres, a alta concentração de arsênio encontrada no bolo sugere um planejamento cuidadoso e premeditado. “A pessoa teve que pesquisar, levou tempo para conseguir a substância, provavelmente de forma ilícita, o que já demonstra preparação”, explica Daitx.
Os dez casos a seguir exemplificam como indivíduos que aparentavam ser amigos serviram alimentos fatais, integrando as 629 notificações de intoxicação exógena ligadas à violência ou homicídio recebidas pelo Ministério da Saúde em 2024.
1. Arsênio em Torres (RS)
No dia 23 de dezembro, seis membros de uma família consumiram um bolo com arsênio. Morreram Neuza Denize Silva dos Anjos, de 65 anos, Maida Berenice Flores da Silva, de 59, e Tatiana Denize Silva dos Anjos, de 47. Zeli dos Anjos, de 60 anos, que fez o bolo, foi internada. A nora de Zeli, Deise Moura dos Anjos, foi presa e se tornou suspeita de ter envenenado o sogro em setembro. O motivo dos crimes seria o ódio de Deise em relação a Zeli.
2. Envenenamento em Parnaíba (PI)
Francisco de Assis Pereira da Costa foi preso após envenenar nove pessoas em Parnaíba no dia 1º de janeiro. Morreram seus dois enteados, Manoel Leandro da Silveira, de 18 anos, e Francisca Maria, de 32, além dos dois filhos de Francisca. Ele misturou arroz com o pesticida terbufós em um baião de dois. Francisco, que admitiu odiar Francisca, impressionou a polícia pela frieza.
3. Veneno de Rato em Belém
No dia 10 de novembro, três mulheres de uma família foram envenenadas após consumirem um açaí com veneno de rato. A adolescente Verônica Sabrine dos Santos, de 16 anos, morreu, enquanto sua mãe e avó foram internadas em estado grave. O pai de Verônica, que enviou o açaí, é investigado.
4. Chumbinho em Boa Viagem
Charles Luiz Félix da Costa, de 44 anos, foi preso em 25 de julho por envenenar sua filha recém-nascida com chumbinho misturado ao leite. A bebê, de apenas cinco dias, não sobreviveu.
5. Morfina no Rio de Janeiro
No dia 17 de maio, o empresário Luiz Ormond morreu após ingerir uma sobremesa contendo mais de 50 comprimidos de morfina. A psicóloga Júlia Andrade Cathermol Pimenta, namorada de Ormond, foi acusada de preparar o doce a mando de uma cigana.
Esses casos não apenas chocam, mas também revelam a necessidade de uma análise mais profunda sobre a violência familiar e suas causas, destacando a urgência de ações de prevenção e conscientização.
















