Pense duas vezes antes de se tornar jornalista. Pense uma vez mais antes de fazer jornalismo numa cidade brasileira de médio ou pequeno porte.
Como mostra “Boca Fechada”, documentário recém-lançado em serviços de streaming, pelo menos 64 comunicadores foram assassinados no Brasil de 1995 a 2018 em função do exercício da profissão.
Na América Latina, o país só fica atrás do México, que é “um ponto fora da curva” nas palavras de Artur Romeu, da ONG Repórteres sem Fronteiras.
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Boca Fechada: Estreia documentário sobre assassinatos de jornalistas brasileiros
Seis em cada dez jornalistas assassinados no Brasil nesse período trabalhavam em cidades com população abaixo de 200 mil habitantes. É o caso de Bragança, no nordeste do Pará, onde Jairo de Sousa foi morto com dois tiros nas costas quando entrava na rádio Pérola, na qual era locutor.
A equipe do filme, dirigido por Marcelo Costa Lordello e Aquiles Lopes de Oliveira, foi a Bragança para esquadrinhar o crime que comoveu a cidade em junho de 2018. “Com esse microfone, ele perturbou muita gente”, conta Jaiane, filha de Sousa.
A jovem demonstra revolta com os desdobramentos do caso.
Os assassinos, com a promessa de receber R$ 30 mil pelo assassinato, logo foram presos, mas o acusado de ser o mandante do crime, o vereador César Monteiro (PR), conseguiu um habeas corpus que o manteve longe das grades –ele só foi preso meses depois de encerradas as filmagens.
A prisão dos mentores dos assassinatos é uma exceção. No período de que trata o documentário, apenas 11 mandantes de crimes desse tipo foram a julgamento no Brasil.
Como afirma Samira Castro, do Sindicato dos Jornalistas do Ceará, “o combustível para esse alto nível de violência contra os comunicadores é a impunidade”.
Fica no litoral cearense outra cidade visitada pela produção de “Boca Fechada”. Em Camocim, Gleydson Carvalho, também radialista de tom contundente, foi assassinado com três tiros em agosto de 2015. O pistoleiro que o matou foi preso, mas os mandantes não, segundo o documentário.
Três meses depois da morte de Carvalho, em novembro de 2015, o alvo foi Israel Silva, o terceiro caso retratado pelo filme. Foi morto em uma papelaria em Lagoa de Itaenga, no interior de Pernambuco.
Embora ele e a família sofressem ameaças, Silva continuou a denunciar líderes da região na rádio comunitária onde atuava, associando-os à lavagem de dinheiro. Homens ligados ao tráfico de drogas foram presos, mas a família acredita, com convicção, que o crime teve motivação política.
“Boca Fechada” é, por vezes, desolador. “As pessoas antes tentavam comprar [os jornalistas]. Agora, não. Elas removem o problema. Que jeito? Mandam matar”, diz Felipe Gilé, do Sindicato dos Jornalistas do Pará.
“A profissão de jornalista é perigosa? É, sempre corremos riscos, sempre foi assim. Você denuncia fatos que ninguém quer que venham a público”, diz Angelina Nunes, ex-presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).
“Quando se trabalha numa cidade pequena, longe das capitais, você está tocando um veículo sozinho ou você mesmo é o veículo, no caso dos blogueiros. É uma situação de muita vulnerabilidade.”
Ao retratar de modo objetivo e sóbrio esses três assassinatos, que simbolizam um quadro bem mais abrangente, “Boca Fechada” provoca incômodo e indignação. É um jeito de levar o Brasil a se olhar no espelho, e o que se vê é ruína.
Boca Fechada
É possível comprar e assistir ao documentário no YouTube.
Onde: Apple TV, Now, Google Play, YouTube e Vivo Play
Classificação: 12 anos
Produção: Brasil, 2021, 71 min
Direção: Marcelo Costa Lordello e Aquiles Lopes de Oliveira
















